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domingo, 30 de outubro de 2011

A VIRGEM MARIA MORREU OU NÃO?

A morte mais duvidosa da História
Esta crença formou-se a partir de três passagens das Sagradas Escrituras, nas quais se diz expressamente que a morte entrou no mundo por culpa do pecado de Adão e Eva.
Esses textos encontram-se no livro do Genesis (cap. 3), no da Sabedoria (2,23-24) e nas cartas de Paulo (Rm 5,12; 1 Cor 15,21).
Se isto é assim – diziam – então, antes de aquele pecado ter sido cometido, as pessoas eram todas imortais e gozavam no Paraíso terreal de imunidade perante a dor, a doença e a velhice. Ora bem, os homens perderam a imortalidade com o pecado. Mas a Virgem Maria, ao ser a única criatura no mundo que nunca cometeu pecado, não devia morrer. E por isso, concluíam, deveu passar diretamente da vida terrena para a vida eterna.
O silêncio do Papa
Esta opinião dividiu os estudiosos católicos durante muito tempo, pois outros acreditavam expressamente que a Mãe de Deus tinha morrido, uma vez que tal é a condição normal de todo o ser humano.
Quando em 1950 o Papa Pio XII declarou o dogma da “Assunção de Maria”, isto é; Maria foi levada por Deus em corpo e alma aos céus, houve grande expectativa entre teólogos pois pensaram que seria também esclarecida a questão da sua morte.
Contudo nessa ocasião, o Pontífice disse: “Declaramos ser dogma divinamente revelado que a Imaculada Mãe Deus, terminado o curso da sua vida terra, foi levada em corpo e alma à glória do céu.” Com isto deixou o problema sem resolver, pois não explicou se foi levada depois de morrer, ou sem que tivesse morrido.
Foi finalmente João Paulo II quem, em 1997, numa das suas catequeses semanais pronunciou sobre esta controvérsia teológica, manifestando que de fato a Mãe morreu, e que por isso experimentou na sua própria carne o drama da morte, como toda criatura humana.
Contra a tradição da Igreja
O Papa justificou a sua afirmação com três razões.
A primeira, porque toda a tradição da Igreja sustentou sempre que Maria foi levada ao céu depois de morrer. De fato, desde os primeiros séculos cristãos encontramos figuras de renome como Santo Epifânio Santo Ambrósio (+397), São Jerônimo (+420), Santo Agostinho (+430), São João Damasceno (+749), Santo Anselmo (1109), São Tomás de Aquino (+1274), Santo Alberto (+1280), São Bernardino de Sena (+1444) e uma longuíssima lista de escritores eclesiásticos, que sustêm, de um modo claro e terminante, a morte da Virgem. Só a partir XVII começa a aparecer a opinião da imortalidade corporal de Maria. Por isso, os que sustentam que Maria não teria morrido, opõem-se à tradição da Igreja.

A segunda, porque pensar que a Virgem Maria não morreu é outorgar-lhe um privilégio que a colocaria acima do seu próprio Filho, uma vez que Jesus Cristo também não teve pecado e, contudo, morreu. Porque não havia, pois, de morrer a sua Mãe?
A terceira, porque para ressuscitar é necessário, antes, morrer. Sem a morte prévia é impossível a ressurreição. Ora bem, se Maria não tivesse morrido, como teria podido ressuscitar? Como teria podido ir ao encontro de seu Filho e de todos os santos, que primeiro morreram e depois ressuscitaram?
Uma biologia inalterável. Por tudo isso, conclui o Papa, Maria de Nazaré morreu, apesar de não ter tido pecado. Para esclarecer isto, devemos agora recolocar-nos a questão da qual derivou toda esta contenda. Se Adão e Eva também não tivessem pecado, tal como Maria, teriam sido imortais? No Paraíso terreal a humanidade vivia livre do drama da morte, antes do pecado original?
Hoje os exegetas sustentam que não. Dizem que, com pecado ou sem pecado, a morte teria existido na mesma. Afirmam que aquela primeira falta cometida por Adão e Eva não alterou em nada a biologia do reino vegetal, animal e humano.
E que toda esta crença na imortalidade humana se deveu a uma interpretação literalista, e por isso mesmo errônea, dos textos bíblicos mencionados anteriormente. Com efeito, se os analisarmos agora cuidadosamente, veremos que em nenhum momento eles afirmam semelhante idéia.
O primeiro texto é de Gênesis 3,1-19. Ali se relata como, quando Deus criou Adão e Eva, os colocou no Paraíso terrenal, com uma proibição: não comer da árvore da ciência d bem e do mal plantada no meio do jardim. Contudo, eles, tentados pela serpente, não acolheram as ordens de Deus e comeram fruto. Então Deus, ao comprovar a desobediência, marcou-os com uma série de castigos começando pela serpente, seguindo pela mulher e terminando com o homem.
A pena de morte dada por Deus
Analisando os castigos impostos por Deus, veremos que todos estão enunciados mesma forma, isto é, em forma imperativa própria de quem emite uma ordem.
À serpente disse (v.14-15):
serás maldita entre todos os animais;
rastejarás sobre o teu ventre;
alimentar-te-ás de terra;
serás inimiga da mulher
À mulher disse (v.16):
aumentarei os sofrimentos da tua gravidez
entre dores darás à luz os filhos;
procurarás apaixonadamente o teu marido
mas ele te dominará.
E ao homem disse (v. 17-19):
maldita seja a terra por tua causa;
tirarás alimento dela com penoso trabalho;
ela produzir-te-á espinhos e abrolhos;
comerás a erva dos campos;
comerás o pão com o suor do teu rosto.
Depois de tudo isto, Deus acrescenta: “Até que voltes â terra de onde foste tirado, porque tu és pó e ao pó voltarás” (v.l9).
Como podemos ver, esta frase “até quê voltes â terra de onde foste tirado” não faz, parte dos castigos impostos por Deus. É uma simples informação que Ele dá a Adão sobre quanto tempo terá que sofrer esses males; até que regresse ao pó, quer dizer, até que chegue a morte, que se dá subentendida.
Portanto, em Gn 3 a morte não é um castigo imposto por Deus, mas algo que se pressupõe. O autor sagrado, com esta expressão, entende que, antes do pecado, a morte já era o fim do homem, e que os novos castigos deverão ser sofridos até que essa morte aconteça.
Adão e Jesus Cristo
A terceira vez que encontramos esta idéia é nas cartas de São Paulo. Escrevendo aos Romanos, o Apóstolo diz-lhes: “Por um só homem entrou o pecado no mundo. E pelo pecado entrou a morte. E assim, a morte alcançou a todos os homens, porque todos pecaram” (5,12).
Mais adiante, reitera na mesma carta: “E assim como o pecado de um só [Adão] trouxe sobre todos os homens a condenação, assim também a justiça de um só [Jesus Cristo] trouxe a todos os homens a justificação que dá a vida” (5,18).
Como vemos, Paulo estabelece uma comparação entre Adão (o primeiro homem de toda a humanidade) e Cristo (o primeiro homem da nova humanidade). E afirma que, se por um lado a morte entrou no mundo através do pecado de Adão, Cristo veio reparar essa tragédia trazendo o perdão e a nova vida. Ora bem, qual é a nova vida que Jesus Cristo trouxe ao mundo para reparar a perdida por Adão?
Não é, evidentemente, uma nova vida biológica. Os homens não têm um melhor funcionamento físico graças à vinda de Jesus Cristo. Então, também a provocada pelo pecado de Adão não foi uma morte biológica.

Para a Bíblia, o mais natural

Estas são as únicas vezes em que a Bíblia afirma que a morte entrou no mundo pelo pecado. E como vimos, em nenhuma delas se refere à morte biológica. Por isso hoje os biblistas já não aceitam a idéia da imortalidade corporal antes do pecado original.
Mais ainda. Se analisarmos as outras vezes em que na Bíblia se fala da morte, subentende-se que esta existe como algo normal, que faz parte do ciclo natural do ser humano, e que mais cedo ou mais tarde todo o indivíduo a deve experimentar pelo simples fato de ser humano.
Nunca vemos que ninguém se rebele contra ela, nem que se lamentem de que tão horrorosa realidade tenha aparecido por culpa de uni primeiro par humano.

Assim, lemos que:
o todos partirão deste mundo sem possibilidade de regressar (2 Sm 12,23);
o fomos formados com o barro e algum dia voltaremos ao pó (1h 10,9);
o nenhum ser humano poderá “viver sem ver a morte” (SI 89,49);
oé inevitável ter que ir “pelo caminho de todos” (Js 23,14);

o “quando morremos, somos como a água que, uma vez derramada na terra, não mais se pode recolhe” (2 Sm 14,14);
o tanto aos sábios como aos insensatos, “a todos eles espera a mesma sorte” (Ecle 2, 14);
o no que se refere à morte, “é o mesmo o destino dos homens e o destino dos animais; um mesmo fim os espera. Como a morte de um, assim é a morte de outro” (Ecl 3,18).
Portanto, na Bíblia a morte aparece como um passo iniludível e forçoso. Vida e morte formam parte do ciclo normal do destino humano. Por isso a morte é sempre aceita, sem discussão nem especulações possíveis acerca do que poderia ter acontecido no caso de não ter existido o pecado.
A “morte” que entrou com o pecado
Esclareçamos agora qual foi a morte que apareceu no mundo por culpa do pecado. Atualmente, os teólogos ensinam que, ao contrário do que antes se julgava, não se trata da morte “biológica”, mas da morte “psicológica”.
O que é a morte psicológica? No caso de os seres humanos não terem pecado, a morte física teria igualmente existido, mas não seria experimentada como algo aterrador e desesperante. O homem e a mulher teriam podido enfrentá-la com a paz e a alegria dos amigos de Deus.
A morte teria sido uma simples viagem, uma partida feliz e agradável, um passo jubiloso rumo ao encontro com o Senhor, uma despedida momentânea de familiares e conhecidos, com a garantia de que em breve voltariam a encontrar-se de um modo mais pleno e perfeito.

Mas, a partir do pecado, nublou-se nos a vista. Deixamos de ver a morte como um passo feliz em direção à vida com Deus, e começamos a vê-la como verdadeira “morte”, isto é, como algo pavoroso e traumático, que nos angustia e acabrunha, que nos acossa em cada momento da vida, e no qual soçobram todas as esperanças e as ilusões humanas, porque já não sabemos bem o que nos espera do outro lado nem como será o além.
Essa é a morte “psicológica”. Essa é a morte que apareceu com o pecado. O poeta francês Charles Péguy disse-o com uma intuição genial: “Aquilo que a morte foi a partir desse dia, antes não era mais do que uma partida natural e tranqüila.”
O novo rosto da morte

Por não termos entendido isto, acreditamos que a Virgem Maria foi preservada da morte corporal. Como se esta, em si mesma, fosse um castigo ou um “defeito de fabrica” quando, na realidade, o mal está no modo como ela é experimentada.
Com a vinda de Cristo, a morte “psicológica” foi vencida. Quer dizer, perdeu o seu caráter horroroso e trágico e voltou a recuperar o seu rosto anterior. Com Cristo, o homem recuperou a possibilidade de vê-la como ela era num princípio: um sereno encontro de amigos íntimos.
Por isso São Paulo fala dela como de um adormecer em Cristo (1 Cor 15,18); e diz: “preferimos exilar-nos do corpo, para irmos morar junto do Senhor” (2 Cor 5,6); pois, para ele, “viver é Cristo e morrer, um lucro” (F1 1,21).
Desde então, milhares e milhares de cristãos ao longo da História enfrentaram a morte com tranqüilidade e alegria. E por isso, quanto mais próxima estiver uma pessoa de Deus, menos temor sente perante a morte.
Porque sabe que esta já não é “morte”, mas uma luminosa saída ao encontro do abraço final e eterno com o Deus do Amor. Jesus Cristo já arrancou à “morte” a sua máscara aterradora. De nós depende voltar a entendê-la como era antes. Para que a futura possibilidade da sua vinda, que a todos nos espera, não amargue, nem angustie, nem entristeça o tempo da espera.
Com razão diz o livro do Apocalipse: “Felizes os que de agora em diante morrem em união com o Senhor” (14,13).

FONTE ELETRÔNICA:

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