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sábado, 5 de dezembro de 2009

QUEBRA DE MALDIÇÕES

Faço parte dos sacerdotes católicos que questionam as celebrações e os ritos hoje conhecidos como quebra de maldição. Somos milhões os católicos que não vemos tal catequese como proposta positiva de vida e de fé. Canoniza o medo, dá a entender que Deus se vinga até à quarta geração, e acentua demasiadamente o papel de alguns sacerdotes ou dos intercessores em detrimento dos sinais e dos sacramentos que já temos na Igreja. Além do mais, empobrece a doutrina da graça, da redenção, da presença de Deus na família, da misericórdia e do poder salvífico do sangue de Cristo. Colocam o ritual de quebra e de purificação acima da certeza do perdão. E dão a entender que só aquele grupo ou aqueles sacerdotes podem derrotar o que eles chamam de estratégia do inimigo! No fundo eles também têm uma estratégia de combate ao inimigo e chama-na de quebra de maldição. A Igreja com seus sacramentos e sua proposta de confiança no perdão está acima desses esquemas. Vai-se aos templos para interceder, pedir perdão, louvar, agradecer, ouvir a palavra e partilhar da riqueza espiritual que temos. Oficialmente a Igreja não tem nenhum ritual de quebra de maldição. Apenas alguns grupos a praticam. E se alguém o fizesse teria que ser autorizado pelo bispo porque exorcistas não podem se improvisar. Entre nós não é qualquer pregador que lida com o mal e com o demônio. Em casos mais graves as autoridades precisam intervir. Mas o acento dos católicos é na coragem e na confiança no Deus que perdoa e que não se vinga de nossos erros passados, nem dos erros de nossos antepassados. *** Ao ouvir um pregador católico numa emissora convidando os fiéis para uma missa de quebra de maldições, e ao vê rna televisão o convite de uma igreja pentecostal para mais uma sessão de descarrego, tentei lembrar algum papa, bispo ou documento que nos últimos cem anos tivesse abordado tal prática de exorcismo contra o mal ou contra o demônio. Não me lembrei de nenhum. Também não sei de nenhum teólogo católico que acentue esta luta contra as maldições na família. O que sei é das encíclicas Miserentissimus Redemptor, Redemptor Hominis, Dives in Misericórdia, Redemptoris Mater. Apontam para o Deus que perdoa e que liberta.
Se releio o os documentos do Vaticano II, o CIC (Catecismo da Igreja Católica), se procuro, no Novo Testamento, os temas redenção, resgate, salvação, mediação, compaixão, perdão e misericórdia, o que encontro é Jesus e seus apóstolos a me dizerem para não ter medo e a confiar nele porque ele venceu o mundo.
Fica mais claro a cada passagem que Deus não vai punir ninguém pelos desvios ou erros dos antepassados e que um cristão, sobretudo se for católico e crer nos sacramentos, não carrega maldição alguma. O que somos é portadores da misericórdia do mesmo Jesus (Rm 9,23, 2 Cor 4,7). Se há vasos para a desonra, estes não somos nós. O que sei é Jesus que curou um paralítico, sem que o enfermo o pedisse, (Jo 5,1-12) e depois propôs que ele mudasse de vida para não lhe acontecer algo pior. Não era maldição. Era advertência. Sei que ele ressuscitou o filho de uma viúva,(Lc 7-12-15) sem que ela tivesse solicitado.
O que sei é que em Jesus fomos libertados do antigo jugo e que seu jugo não fere e seu fardo é leve. ( Mt 11,30; Gl 5,1) e ninguém de nós tem que passar pelo ritual de quebra de encanto ou de maldição, qualquer que seja o padre que o faz. Já temos os sacramentos. Marreta alguma de padre nenhum quebrará as maldições que levamos, porque não somos malditos e, sim,agraciados e benditos, predestinados e justificados, gratuitamente. (Rm 8,29-30) (Rm 3,22-24)
Fomos batizados, crismados, consagrados ou em ministérios ou em matrimônio e o rio de bênçãos que passa por nossa igreja e por nossas famílias é maior do que eventuais problemas e descompassos que possa haver lá, onde atuamos.
Leio em Efésios: “Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, a este "glória" na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém. (Efésios 3, 20-21)
Mas isto só se aprende quando aprendemos a catequese de todas as dimensões do Cristo:
“do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome, para que, segundo as riquezas da sua glória, vos conceda que sejais corroborados com poder pelo seu Espírito no homem interior; para que Cristo habite pela fé nos vossos corações; a fim de, estando arraigados e fundados em amor, poderdes perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, E conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus. (Ef 3,15-19)
O demônio não tem poder sobre nós. Já fomos resgatados pelo Cristo (1 Pd 1,18)
Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro; (Gálatas 3, 13)
Deus que é rico de misericórdia, ( Ef 2,4) muito nos ama e amou. Seu filho Jesus disse para não termos medo,(Mt 10,31) porque valemos mais do que muitos passarinhos. Se eles são resgatados nós também somos. Foi Jesus quem nos garantiu que somos ramos da videira que é ele, (Jo 15, 1-56) Ele mesmo nos classificou como luz do mundo e sal da terra (Mt 15,14, Mt 5,13) e garantiu que se o buscarmos e se tivermos fé o mal não prevalecerá contra nós ( Mt 9,22).
A insistência no mal que nos cerca e na necessidade de quebrá-lo, insistência que se pratica nas igrejas pentecostais é problema a ser resolvido por aquelas igrejas. Para nós, católicos, que somos igrejas cristãs e não pentecostais, o Cristo crucificado e ressuscitado e presente entre nós e na eucaristia é força suficiente para sabermos que, para aquele que confia em Deus tudo concorre juntamente para o bem. (Rm 8,28) Se somos espirituais sabermos discernir o mal do bem (1 Cor 2,15) Paulo lembra que Jesus já nos libertou e propõe firmeza contra quem tenta nos colocar debaixo do jugo da servidão( Gl 5,1) .
Para quem é de Cristo os tais ritos de quebra de maldição não têm o que quebrar, porque Deus não põe na nossa conta o débito dos nossos a antepassados. A Igreja ora e pede perdão em suas missas: Por minha culpa, minha culpa tão somente minha culpa! Se débito há ele é exclusivamente nosso.Então ela pede a intercessão de Maria e dos santos para que orem, lá no céu, por nós. Não estamos pagando por nenhum DNA ou por nenhuma árvore genealógica. Não somos seus frutos enfermos. O pecado eles era deles e foi resolvido entre eles e Deus que é rico em misericórdia. O nosso também o será, porque Cristo fez o que foi preciso para nos regenerar.( At 2,28) O resgate já foi pago com antecedência.
Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro; (Gl 3, 13)
Não temos porque temer. Ele pagou por nós um alto preço. Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça, (Ef 1, 7) Prendeu o que nos mantinha presos (Ef 4,8). Havendo por Cristo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliou consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus. (Cl 1, 20)
Quebra de quê se a maldição já foi quebrada? Se o que prevalece é a bênção? Medo de que se até a morte já foi vencida? Onde está a tal vitória do inimigo? (1Cor 15,54-57)
O pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça. (Romanos 6,14)
Quem quiser ficar apenas com o Antigo Testamento vaia achar trechos que sustentam a tal quebra de maldição como forma de expiação. Mas naquele tempo não havia acontecido a redenção. Agora temos um Redentor e um Sumo Sacerdote que se compadeceu da dor do povo ( Hb 4,15; 8,1; 9,11). A doutrina é de Paulo.( Hb 5,1)
Todo o sumo sacerdote, tomado dentre os homens, é constituído a favor dos homens nas coisas concernentes a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados (Hebreus 5,1)
Mas Jesus foi mais longe. Pagou por nós. Seu sangue foi derramado por nós. Assumiu nossas cruzes e dores e expiou nossas culpas e as de nossos antepassados. Já pagou por todos. (1 Pd 1,18-22) E Pedro orienta:
Se invocais por Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação, ( 1 Pd 1,17)
Se Deus nos julga segundo a obra de cada um, então não há maldição de antepassados a pagar, porque a obra deles é deles e a nossa é nossa. Seremos julgados pelo que fizemos ou não fizemos e não por nossa árvore genealógica. Quem prega isso na mídia tem todo o direito de pregar, mas quem discorda tem o mesmo direito de discordar. Afinal lemos a mesma Bíblia e somos chamados a seguir os mesmos documentos oficiais da Igreja! Ora, os bispos e os papas destes últimos cem anos nunca entraram oficialmente nesse assunto; Não sei de nenhuma cerimônia de quebra de maldição conduzida pelos bispos ou pelos papas. Se cremos em Jesus, não há porque repetir estes rituais de quebra do que quer que seja. Já temos rituais de reforço das bênçãos.
Se eu fosse pároco e soubesse que um sacerdote está quebrando maldições em algum lugar convidaria os fiéis que forma a ele para que viessem a mim numa cerimônia de confirmação da bênção batismal. Não falaria em maldição. Gastaria o tempo mostrando os textos de compaixão e de misericórdia e deixando claro aos fiéis assustados com alguma culpa, que Deus não se vinga nos netos do que os avós fizeram. Ensinaria mais. Diria que aqueles mesmos avós ou bisavós já acharam misericórdia no Deus que tem compaixão de quem Ele quer ter compaixão ( Ex 33,19) e Ele quer ter misericórdia de todos os seus filhos sem exceção.
O acento na presença ou no poder do anticristo no mundo cheio de maldades, às vezes prejudica a fé no poder do Cristo na sua igreja e nos homens e mulheres de boa vontade. Fica-se com a impressão de que Jesus não está dando conta da sua missão e que o demônio está vencendo porque não foi suficientemente exorcizado. Alguns grupos pentecostais chegaram até mesmo a por o microfone na boca de algum suposto possesso para que o demônio falasse e fosse derrotado diante das câmeras. A este ponto chegou o cristianismo de resultado, de poder e de milagres! Precisam de provas e produzem provas!
Jesus começou sua pregação pedindo penitência e conversão (Mt 4,17), sugeriu oração e esmolas em segredo e jejuns sem alardes. (Mt 6,4-6) De fato expulsou muitos demônios, mas nunca instituiu um ritual de quebra de maldição, porque elas se tornaram desnecessárias com o seu sacrifício redentor. Ele já pagou antecipadamente. Se vivemos e morremos em Cristo e se somos dele e somos o seu bom perfume ( 2 Cor 2,15 não precisamos deste ritual. ***À senhora que me pediu uma benção de quebra de maldição na sua família perguntei se ela comungava e se pedia perdão a Deus. Disse que sim. Perguntei se ela acreditava que Jesus morreu por todos, inclusive pela família dela. Disse que sim. Então não havia maldição a quebrar. O que ela chamava de maldição ela ouviu de algum pregador de rádio. Quem tinha tanto amor pelos filhos e pelo esposo e enfrentava sérios problemas em família tinha em si mesma e na Igreja as forças para fazer face a eles.
Eu reforçaria a sua confiança no poder de suas orações de mãe, nas suas mãos de mãe e no seu coração de mãe. Fiz a prece de confiança na misericórdia, rezei com ela a Salve Rainha, rezei o Salmo 46, do salmista que sabe do colo de Deus, o 51 do salmista arrependido dos seus pecados pessoais, o 55 do salmista que se sente encurralado e perseguido mas não amaldiçoado, o 69 do salmista que sente a água até o pescoço, e o trecho de João 14,15-30 de Jesus que promete enviar seu Espírito Santo a quem o ama e encher de paz quem o procura.
Acentuei os versículo 27 e 30: nada de aflição, nada de depressão, nada de medo. Deixo a paz com vocês, O que dou é a minha paz e não a dou do jeito que o mundo a dá. O que manda neste mundo está mostrando as garras, mas ele não tem poder sobre Jesus e quem ama Jesus, porque Jesus é a videira e nós somos os seus ramos. ( Jo 15, 1-26) Propus que ela lesse em voz alta todo o capítulo 15 de João. Após a leitura disse ela: - Nunca tinha pensado nestas verdades!
Perguntei se ainda queria uma cerimônia de quebra de maldição. Sorriu e disse que era discípula de Jesus e que não havia maldição a ser quebrada. Lembrei-lhe que não sei de nenhum papa ou bispo que nos últimos 100 anos se preocupasse com isso. Eles acentuam a compaixão e a misericórdia. Seus familiares estão no colo de Deus e ela também já está. Eu gostaria que ela tivesse lido alguma das três encíclicas de João Paulo II sobre a misericórdia e a de Bento XVI sobre o Deus que é amor. Nunca mais teria medo! Bastar-lhe-iam a confissão e a eucaristia!
padre zezinho

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