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domingo, 30 de janeiro de 2011

Não haverá mais tempo! EB

Revista: "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 464 - Ano 2001 - p. 1

Não haverá mais tempo! (Ap 10,6)
Fim e começo de ano lembram sempre a passagem do tempo. "Como voa!", costuma-se exclamar. Segundo Ap 10, 6, um anjo proclamará certa vez: "Já não haverá mais tempo!" - Estes dizeres poderão suscitar imensa alegria a quem, fatigado se vier emancipado das vicissitudes do tempo e feliz por ter preenchido santamente os seus dias. Todavia poderão despertar susto e dissabor a quem for colhido de surpresa e despreparado. Com efeito; é freqüente verificar que os homens só apreciam os valores que têm, depois que desaparece, é que os usuários tomam consciência de haver lidado com grandes bens sem se dar plena conta disto. Assim também é o tempo; pode parecer insignificante (há mesmo quem procure "passa-tempos" ociosos), mas, uma vez perdido, aparece com todo o seu valor.

Ora o começo de novo ano sugere uma reflexão sobre estes fatos, a fim de que não se respiram. Para o cristão, o tempo é o valor básico, pois sem ele nenhum outro valor pode existir. E não somente no plano racional é valor fundamental; mais ainda o tempo vale no plano da fé; sim, é o tempo resgatado pelo sangue de Cristo, "o tempo oportuno, os dias da salvação" (cf. 2Cor 6, 2). E por que tão importante? - Porque nas 24 horas de cada dia já se iniciou o Reino de Deus. Consciente disto, dizia São Paulo: "O tempo se fez breve" (1Cor 8, 29). Breve... não porque os dias sejam mais curtos, mas porque dentro das 24 horas de cada dia se instaurou algo de tão grande e momentoso que "não há mais tempo". O tempo do cristão é polarizado pela presença do Eterno dentro da volubilidade do mundo. Aliás "passa a figura deste mundo" (1Cor 7,31).

Estas verdade se tornam ainda mais significativas no começo de novo ano. Com efeito; ressoa então mais vivamente a advertência do Apóstolo: "A nossa salvação (consumação) está agora mais próxima do que quando começamos a acreditar ou a viver a nossa fé" (Rm 13, 11). E continua o Apóstolo: "A noite vai adiantada, o dia se aproxima"; na verdade, para quem sofre de insônia, a noite é tanto mais penosa quanto mais adiantada: mas este especial penar é penhor de muito próximo término. Assim é a vida do cristão: passada na penumbra ou mesmo na noite da fé, quanto mais avançada em anos ela é, tanto mais penosa pode ser, mas também tanto mais penetrada pelos albores do dia que vai despontando e aos poucos dissipará as trevas.
Importa, pois, a todo discípulo de Cristo levar cada vez mais a sério a exortação do Senhor: "Vigiai, pois não sabeis nem o dia nem a hora" (cf. Lc 12, 35-40). Qualquer momento pode ser o último e há de ser intensamente vivido na presença do Eterno.

Possa o novo ano significar para todos os nossos leitores uma aproximação ainda mais consciente da luz do Dia sem ocaso para o qual noites e dias sucessivamente nos encaminham!



A Bíblia na Linguagem de Hoje - EB Parte 1

Revista: "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

D. Estevão Bettencourt, Osb

Nº 523, Ano 2006, p. 7

Em síntese: A "Bíblia na Linguagem de Hoje" é uma tentativa de traduzir em linguagem popular o texto sagrado para torná-lo acessível ao grande público. A intenção dos tradutores é louvável, mas a obra é infeliz, pois, mais do que uma tradução, fizeram uma interpretação, por vezes nitidamente protestante. Alem do quê, a adaptação do texto sagrado ao vocabulário popular faz que o novo texto deixa de apresentar termos bíblicos ricos de conotações e temas teológicos como "Tradição, depósito, mistério..."; assim se empalidece a mensagem bíblica em vez de ser levada ao povo simples. A solução para o problema da difusão da Bíblia está, antes, em conservar o vocabulário típico e rico do texto sagrado, munindo-o, porém, de notas explicativas em rodapé, a fim de que o leitor não iniciado cresça em cultura bíblica, em vez de ser deixado na sua exígua cultura, com empobrecimento da mensagem sagrada.

A Sociedade Bíblica do Brasil, de orientação protestante, editou em 1988 os livros protocanônicos da Bíblia "na linguagem de hoje" ¹. Até aquela data só existia o Novo Testamento em tal estilo. O trabalho conta com a colaboração das Sociedades Bíblicas Unidas e tem seus paralelos em outras línguas modernas. Ainda as Sociedades Bíblicas Unidas traduziram os escritos deuterocanônicos (Tobias, Judite, Sabedoria, Baruque, Eclesiástico, ½ Macabeus, Ester 10, 4-16, 24; Daniel 3, 24-90, 13-14), que o catálogo católico considera Palavra de Deus ou partes integrantes da S. Escritura.

Ora eis que as Edições Paulinas (católicas) obtiveram a autorização para publicar num só volume os textos canônicos e deuterocanônicos da Bíblia, que atualmente está sendo apresentado ao público como "Nova Tradução na Linguagem de Hoje" (BLH); acompanhada de uma carta assinada pelo sr. Bispo D. Eugenio Rixen, Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-catequética, ... carta que não quer dizer que tal é a melhor tradução da Bíblia, mas apenas significa que é aceitável.

O texto em pauta tem notas de rodapé que indicam textos paralelos, mas não explanam a mensagem bíblica; esta fica ao critério do livre exame feito pelo leitor. Também as secções de introdução em cada livro são muito sóbrias. Impõe-se assim a pergunta: quanto vale para o grande público tal edição? - É o que vamos levar em conta.

AVALIAÇÃO

Traduzir é sempre correr o risco de perder algo da força e do colorido do texto original. Isto não quer dizer que não se deva traduzir, mas, sim, que se há de traduzir levando em conta tal risco e procurando minorá-lo tanto quanto possível. Esse risco tem conseqüências especialmente sérias quando se quer verter a Bíblia fugindo intencionalmente da sua nomenclatura original e típica, a título de que é arcaica ou ininteligível ao homem de hoje; conseqüentemente utiliza-se um vocabulário tido como mais moderno e compreensível, mas certamente distante do teor e da pujança dos termos originais. Aos poucos, e insensivelmente, vai-se escrevendo um livro diferente ou uma obra de leitura fácil e agradável, mas incapaz de transmitir toda a riqueza da mensagem nativa.

O problema de tornar a Bíblia acessível à compreensão do grande público não se resolve pela adaptação do vocabulário típico (e, indiretamente, de teor característico) da Bíblia ao linguajar (e, conseqüentemente, ao pensar) do povo simples, mas soluciona-se, antes, pela elevação do nível de compreensão dos leitores ao nível de expressão e pensamento do texto sagrado. O grande público só poderá lucrar se se lhe acrescentar algo em matéria de cultura bíblica, em vez de ser deixado na sua exígua cultura religiosa. Praticamente isto significa que uma boa tradução da Bíblia não se deve furtar ao emprego de termos típicos como "justificação, carne e sangue...", mas, respeitando-os, o tradutor deverá explicar o seu sentido em notas de rodapé; assim o texto guardará as suas feições características semitas ou helenistas e, não obstante, se tornará inteligível.

Em particular, uma das razões pelas quais é indispensável guardar o vocabulário típico da Bíblia, é a seguinte: muitos termos bíblicos têm sua história, suas conotações, suas assonâncias na cultura antiga (hebraica, aramaica ou grega); conseqüentemente, se se trocam tais termos por outros, pode-se perder a noção da riqueza e das implicações semânticas de tais vocábulos.

Passemos agora a exemplos que ilustrarão quanto dissemos e que têm sua ocorrência na "Bíblia na Linguagem de Hoje".

1. Tradição

Tradição tem seu equivalente literal ou semântico no grego parádosis, que significa "dar ou passar adiante". O vocábulo no Novo Testamento supõe a transmissão de uma doutrina de geração em geração dentro de um clima de respeito e veneração que os antigos dedicavam à Palavra de Deus ou ao deposito (parathéke) sagrado (ver subtítulo seguinte).

Ora a BLH troca tradições por outros termos:

2Ts 2, 15: "Fiquem firmes e guardem aquelas verdades que ensinamos a vocês nas nossas mensagens e na nossa carta". Literalmente dever-se-ia dizer em absoluta fidelidade ao texto e sem prejuízo para a clareza: "Permanecei firmes e guardai as tradições (paradóseis, em grego) que recebestes, seja de viva voz, seja por carta nossa".

Segundo a versão da BLH, perde-se a consciência de que as "verdades ensinadas por S. Paulo" são verdades provenientes de fonte mais remota. Além do quê, a palavra mensagens é mais genérica do que "ensinamentos de viva voz"; dir-se-ia que os tradutores quiseram evitar a recomendação que São Paulo faz da tradição oral rejeitada pelos protestantes.

1Cor 11, 2: "Eu os elogio porque... vocês seguem as instruções que eu passei para vocês". Literalmente dever-se-ia ler, sem detrimento para a clareza do texto: "Eu vos louvo por guardardes as tradições (paradóseis) tais como eu vo-las entreguei".

Como dito, a intenção de evitar a palavra "tradição, tradições" quando o Apóstolo a recomenda, deve-se ao fato de que os protestantes rejeitam a tradição divino-apostólica ou as doutrinas que nos foram transmitidas por via meramente oral.

2. Depósito
Esta palavra corresponde ao grego parathéke, que significava um bem a ser guardado com zelo e honradez; não se tolerava qualquer infidelidade ou violação da confiança da parte do depositário. Ora, quando São Paulo se refere à doutrina cristã como parathéke, ele quer incutir essa inviolabilidade devida ao ensinamento de Jesus transmitido pelos Apóstolos. Tal conotação, porém, é enfraquecida, caso se substitua parathéke, como faz a BLH:

2Tm 1,14: "Guarde as boas coisas que foram entregues a você" em vez de: "Guarda o bom depósito (parathéken)".

1Tm 6, 20: "Timóteo, guarde bem o que foi entregue aos seus cuidados" em vez de: "Timóteo, guarda o depósito (parathéken)".

2Tm 1, 12: "Estou certo de que ele (o Senhor) é poderoso para guardar até aquele dia aquilo que me confiou", em vez de: "Estou certo de que Ele tem poder para guardar o meu depósito (parathéken) até aquele dia".

3. Justo, justificar, justificação

"Justo", na linguagem bíblica, é o homem reto, identificado com o plano de Deus. "Justificar" significa "fazer reto ou amigo de Deus". O verbo se prende também ao substantivo "justiça" (dikaiosýne, em grego; sedéq, sedaqáh, em hebraico), que é amplo e rico em significado tanto no Antigo como no Novo Testamento. ¹ É, pois, insubstituível , dados os matizes que tal palavra apresenta o que devem ser levados em conta por quem deseje entender bem a Bíblia. Ora a BLH omite os vocábulos "justificar" e "justiça", como se vê nos textos abaixo:

Rm 3, 20-22: "Ninguém é aceito por Deus por fazer o que a Lei manda... Deus já mostrou que o meio pelo qual ele aceita as pessoas não tem nada a ver com a Lei... Deus aceita as pessoas por meio da fé" em lugar de: "Diante dele ninguém será justificado pelas obras da Lei... Agora, porém, se manifestou a justiça de Deus,... justiça de Deus que opera pela fé em Jesus Cristo". Ver Rm 3, 28.30; 4, 2.3.5...

De Modo especial, a BLH modifica o sentido do texto original em Rm 1,17b; Gl 3, 11b; Hb 10, 38, em que se encontra a citação de Hab 2, 4: "O justo viverá pela fé (ho dikaios ek písteoos zésetai)". Tal versículo em que díkaios é substantivo, vem assim traduzido pela BLH:

Rm 1, 17b: "Viverá aquele que, por meio da fé, é aceito por Deus".

Gl 3, 11b: "Viverá aquele que, por meio da fé, é aceito por Deus".

Hb 10, 38: "Todos aqueles que eu aceito, terão fé em mim e viverão".

A primeira forma de traduzir distorce o texto, pois faz do substantivo díkaios (justo) uma forma verbal passiva: é aceito (o que seria dikaioutai no presente ou dedikaioutai no perfeito, em grego). Transformando o substantivo em verbo, o tradutor ligou-o com o complemento pela fé, de modo a exprimir a doutrina luterana (protestante) da justificação pela fé apenas (sola fides), somente a fé).²

Quanto a tradução de Hb 10, 38, difere da de Rm 1, 17b e Gl 3, 11b, embora o texto grego citado seja o mesmo; é menos protestante do que a tradução de Rm 1, 17b e Gl 3, 11b, mas vem a ser uma interpretação mais do que uma simples tradução.

¹ A propósito ver, por exemplo, A. van den Born, Dicionário Enciclopédico da Bíblia, verbete "Justificação".

² É de notar que a Tradução Ecumênica da Bíblia, realizada por católicos, protestantes e ortodoxos, conserva o sentido clássico: "Aquele que é justo, viverá pela fé" (Rm 1, 17b; Gl 3, 11b; Hb 10, 38). Aliás, esta tradução é exigida pelo contexto mesmo de Hab 2, 3s, onde se faz a antítese entre "aquele que é justo" e "aquele cuja alma não é reta". - Ver Novo Testamento em Tradução Ecumênica da Bíblia. Ed. Loyola.

Notamos outrossim que a edição inglesa de BLH (Good News Bibe) assim traduz Rm 1,17: "The person put right with God shall live through faith" (viverá pela fé).

4. Primeiro filho

Em Lc 2, 7 lê-se que Maria deu à luz o seu protótokon. À primeira vista, este vocábulo se traduz por primogênito; leve-se em conta, porém, que primogênito, no linguajar semita e bíblico, equivale muitas vezes a "unigênito" e "bem-amado", pois o primogênito é, durante algum tempo, o único filho e aquele que concentra todo o amor de seus pais. Tenham-se em vista, por exemplo, os dizeres de Zc 12, 11:

"Quanto àquele que transpassaram, chorá-lo-ão como se chora um filho unigênito; chorá-lo-ão amargamente como se chora m primogênito".

Mesmo fora da terra de Israel, podia-se chamar primogênito o filho que não tivesse irmão nem irmã mais jovem é o que atesta uma inscrição sepulcral judaica datada de 5 a.C. e descoberta em Tell el-Jedouhieh (Egito) no ano de 1922; lê-se aí que uma jovem mulher chamada Arsinoé morreu "nas dores do parto do seu filho primogênito".

Ora a BLH, traduzindo protótokon por primeiro filho, já tira ao leitor brasileiro a possibilidade de perceber a densidade e as peculiaridades de significado do linguajar semita. Com efeito; "primeiro filho", em português, insinua "segundo, terceiro... filhos", como os protestantes querem que tenha havido no caso de Maria e José (ao contrário do que ensina a Tradição cristã até hoje). No vocábulo hebraico suposto pelos evangelistas, o primogênito é aquele antes do qual não houve outro (é por isto o bem-amado), mas não é necessariamente aquele após o qual houve outros.

5. Mistério

Mystérion é outro termo denso no vocabulário bíblico. Era utilizado pelos gregos sob forma de plural para designar os ritos pagãos; e aparece com este significado no texto grego de Sb 14, 15.23; 12, 5. Em Daniel 2, 7.28s, significa os acontecimentos finais da história, cuja notícia é revelada por Deus. Nos apócrifos judaicos, mystérion significa um desígnio de Deus, decretado desde todo o sempre e destinado a se revelar no fim dos tempos para instaurar a ordem violada no mundo pelos iníquos; ver Henoque 49, 2; Henoque etíope 51, 3.

Nos escritos paulinos mystérion é palavra de significado bem definido:

- é o plano da salvação concebido por Deus Pai desde toda a eternidade (1Cor 2, 7) ...

- ocultado a todas as criaturas, até mesmo aos anjos (1Cor 2, 8;Ef 3, 9; Cl 1, 26; Rm 16, 25s)...

- revelado aos homens mediante a pregação dos Apóstolos e a história da Igreja (Ef 3, 3-5. 10s; 1Cor 2, 1.7) ...
- identificado com o próprio Cristo (Cl 1, 27; 2, 2; 4, 3). A morte e a ressurreição de Cristo são o conteúdo mais íntimo do mistério de Deus.

- A progressiva revelação do mistério inaugura os últimos tempos ou marca a plenitude dos tempos (Ef 1, 9).
Ora um vocábulo tão rico de acepções e alusões não pode ser omitido numa tradução da Bíblia, como faz quase por completo a BLH. Nem se vê por que sonegar tal termo, que na própria linguagem popular é usual com efeito, o povo fala freqüentemente de mistério(s). Chama-nos a atenção especialmente a troca de mistério por segredo em Mt 13, 11 ("os segredos do Reino do céu"); Cl 1, 26 ("essa mensagem é o segredo que ele escondeu"); Cl 2, 2 ("o segredo de Deus, que é o próprio Cristo"); Ap 10, 7 ("Deus cumprirá o seu plano secreto...); 1Cor 4, 1 ("nós, que somos encarregados de realizar os planos secretos de Deus")...





A Bíblia na Linguagem de Hoje - EB Parte 2

6. Tu, você(s), o senhor

Em vez de adotar o habitual tratamento tu e vós, a BLH recorre a Tu (quando é interpelado o Senhor Deus), você(s) (quando é interpelado um subalterno), o senhor (quando Jesus ou um chefe é interpelado). Este tratamento suscita confusões e depaupera o texto sagrado, banalizando as suas expressões, como tem revelado a praxe recente. Ademais não se vê motivo para abandonar tu e vós, como se fossem incompreensíveis às pessoas simples (sabe-se que estas recorrem ocasionalmente a tais prenomes). Para que uma tradução da Bíblia seja inteligível à gente simples, não é necessário que reproduza o expressionismo e o vocabulário limitados das pessoas de pouca cultura, pois estas entendem vocábulos de um linguajar mais burilado, embora não os usem. Basta lembrar que o jornal falado da televisão e do rádio recorre a linguagem mediana, nem sempre reproduzida pelo povo, mas significativa para este (daí o enorme índice de audiência que alcança).

7. Ligar-desligar

Em Mt 16, 19, diz Jesus a Pedro, conforme a BLH: "Eu lhe darei as chaves do Reino do céu; o que você proibir na terra, será proibido no céu, e o que permitir na terra será permitido no céu".

Os tradutores puseram "proibir-permitir" em lugar de "ligar-desligar". Ora o binômio "ligar-desligar" (em aramaico, asar e sherá ou hithir) é da linguagem técnica rabínica; significa, antes do mais, atos de jurisdição, pelos quais os rabinos excomungavam (ligavam) ou absolviam da excomunhão (desligavam). Ulteriormente significava decisões doutrinárias ou jurídicas, que o proibiam, declaravam ilícito (ligavam) ou permitiam, declaravam lícito (desligavam). - Donde se vê que a tradução "proibir-permitir" não abrange todo o conteúdo do texto original, pois o reduz a matéria de Moral, quando na verdade, o que Jesus entrega a Pedro conforme o texto original, é o poder de governar a Igreja tanto no plano jurídico como no da Moral e no da doutrina. A própria imagem das chaves, que Jesus consigna a Pedro, lembra a jurisdição, ou seja, o poder de abrir e fechar a comunhão com a Igreja em nome do Senhor Jesus. As sentenças de Pedro são confirmadas pelo próprio Deus.

Em consequência, teria sido necessário conservar o binômio "ligar-desligar" na tradução; o seu significado técnico poderia ser explicado no vocabulário da BLH (pp. 439-447). Qualquer tentativa de substituir "ligar-desligar" equivale a uma interpretação, que pode ser tendenciosa, como é de fato no caso da BLH. A propósito do significado de tal binômio na teologia dos rabinos antigos, ver PR 132/1980, pp. 538s, 543-437.

As mesmas observações devem ser feitas a respeito de Mt 18, 18, onde reaparece o binômio "ligar-desligar", desta vez para designar o poder de jurisdição e magistério que toca aos Apóstolos reunidos em colegiado.

8. Sangue

Em Rm 3, 25; 5, 9; Ef 1, 7; 2, 13; Ap 1, 5; 5, 9 a palavra grega haima é traduzida não por sangue, como seria de prever, mas por morte na cruz. - Ora, se bem que a morte possa em alguns casos lembrar sangue, não se deveria deixar de usar o vocábulo sangue em tais passagens, pois é este que põe em relevo o valor da morte de Cristo como sacrifício ou como vítima de expiação pelos pecados do mundo. O caráter sacrificial da morte de Cristo é essencial à mensagem do Novo Testamento. Aliás, em At 20, 28; Hb 10, 29; 1Pd 1, 19 os tradutores verteram haima por sangue; a mesma palavra grega é, pois, tratada de modo desigual na tradução da BLH.

9. Espiritualmente pobres

A primeira bem-aventurança (Mt 5, 3) reza na BLH: "Felizes os que sabem que são espiritualmente pobres... "Ora a primeira bem-aventurança não consiste em saber..., mas, sim, em viver; ela é dirigida àqueles que têm um coração simples, humilde e despretensioso como é o dos pobres (anawin) que o Antigo Testamento muito louva na medida em que são os fiéis de Deus, despojados de qualquer ilusão a respeito da escala dos valores; os anawin são os que confiam em Deus, e não em si, como fazia S. Teresinha do Menino Jesus, que viveu intensamente a primeira bem-aventurança.

10. Ulteriores observações

Verifica-se que em várias passagens o texto sagrado assume características banais. Por exemplo:

1. O vocábulo óleo é sistematicamente substituído por azeite, que é um tipo de óleo usado freqüentemente em cozinha. Assim Jesus diz ao fariseu Simão:

"Você não pôs azeite perfumado na minha cabeça" (Lc 7, 46), em vez de "Não me derramaste óleo sobre a cabeça".

Em Ex 30, 31 lê-se: "Esse azeite de ungir deverá ser usado no meu serviço religioso".

Em Hb 1, 9 omite-se "o teu Deus te ungiu com óleo de alegria" para se dizer: "...a alegria de receber uma honra..."!

Em Tg 5, 14 lê-se: "Os presbíteros ponham azeite na cabeça do enfermo em Nome do Senhor", em lugar de: "...unjam o enfermo com óleo em nome do Senhor".

2. O verbo tomar cede a pegar, que é por vezes verbo de linguagem banal ("pegou e disse", "pegou e foi"...", "pegou e fez..."). Ver Mt 2, 20; Mt 26, 26s; Mc 14, 22s; Lc 22, 17-19. Ora não se pode dizer que tomar seja palavra erudita ou desconhecida ao povo; o que é certo, é que pegar é não apenas popular, mas até mesmo vulgar e pouco elegante, principalmente numa tradução bíblica. Veja-se especialmente Mt 25, 1-3:

"Naquele dia o Reino do céu será como dez moças que pegaram as suas lamparinas e saíram para se encontrar com o noivo. Cinco eram sem juízo, e cinco ajuizadas. As moças sem juízo pegaram suas lamparinas, mas não arranjaram óleo de reserva".

A propósito pergunta-se: por que moças e não virgens (parthenoi), como está no original?

3. Em Tg 2, 20 lê-se: "Seu tolo!", quando outras edições traduzem por "Homem insensato!"

Em Mc 5, 35 e Lc 8, 49 lê-se: Seu Jairo em vez de Senhor Jairo - o que banaliza o texto.

4. O vocábulo Evangelho é geralmente omitido em favor de Boa Notícia (cf. Mt 4, 23; Mc 1, 1.14; 9, 35) expressão que enfraquece muito o significado do original; se o povo cristão não está familiarizado com o que é Evangelho, os seus pastores têm que lho ensinar e não omitir a palavra.

5. O Vocabulário existente no final da edição da BLH, pp. 1441-1451, abordar os termos "bispo, presbítero, diácono", explica os ministérios da Igreja simplesmente como serviço de direção, liderança e administração sem referência alguma à sacramentalidade dos mesmos - o que tem sabor protestante. Ademais a palavra epískopos é traduzida por bispo, o que não ressalva a índole singular dos epískopoi a que se referem os escritos do Novo. Melhor teria sido dizer epíscopos em português. Cf. Fl 1, 1; 1Tm 3, 1s; Tt 1, 7...

Conclusão

Deixando de lado outras várias observações, concluímos que a BLH não é simplesmente uma tradução, mas vem a ser, em mais de um caso, uma interpretação. Verdade é que todo tradutor tem não raro que interpretar o texto que ele verte. Todavia este fato ocorre com mais freqüência e mais sérias conseqüências quando o tradutor, de caso pensado, procura evitar vocábulos consagrados pelo uso, como se dá na BLH. E diga-se de passagem: a interpretação dada ao texto da BLH, cá e lá, é evidentemente protestante. - Daí não se poder recomendar o uso da BLH nem para católicos, nem para protestantes, pois uns e outros necessitam, antes do mais, de ler o texto bíblico na sua identidade tão objetiva quanto possível.

Ademais pode-se indagar se é oportuno usar linguagem rude (às vezes incorreta) na tradução da S. Escritura. Está claro que esta não deve ser proposta ao grande público em linguagem rebuscada ou "preciosa", mas, apesar de tudo, há de valer-se de vocabulário e estilo de bom timbre, condizentes com a dignidade da mensagem bíblica. O próprio povo aspira a elevar seu nível de cultura, de modo que só poderá mostrar-se grato a quem o ajude a compreender um bom linguajar português que não deixe de ser simples. Julgamos, pois, que não se devem evitar as palavras técnicas do vocabulário bíblico como Evangelho, justificação, mistério... e outras muitas, pois têm suas conotações que outras, tidas como equivalentes, não possuem; o que elas possam apresentar de insólito, seja explicado ao pé da página do texto bíblico ou em glossário próprio, de modo que percam sua estranheza para o leitor não iniciado.

Eis o que nos convinha observar, em termos sumários, a respeito da BLH.





A Data do Nascimento de Jesus - EB Parte 1

Revista: "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"


Dom Estevão Bettencourt, osb



Nº 300 - Ano 1987 - p. 204

Em síntese: A data do nascimento de Jesus foi erroneamente calculada pelo monge Dionísio o Pequeno no século VI; na verdade, Jesus deve ter nascido em 6/7 antes do início da era cristã. Este erro é de somenos importância, pois não afeta a mensagem do Evangelho. Os pesquisadores procuraram retificar o cálculo nos últimos séculos, como prova a bibliografia citada neste artigo. Por conseguinte, tal erro não foi ocultado ao público, mas era abordado em obras impressas e divulgadas. Todavia, como se trata de assunto erudito, ligado a documentos gregos e latinos da história do Império Romano antigo, a data do nascimento de Jesus não costuma ser objeto de pregações. O fato de que o S. Padre João Paulo II abordou a questão em alocução de janeiro pp. não significa que "o erro histórico só foi aceito depois de 1400 anos", como afirma a revista VEJA, de 21/01/1987, p. 78.

A revista VEJA de 21/01//87, pp. 78s, dá muita ênfase à questão da data do nascimento de Jesus, como se houvesse aí problemas sérios, que afetariam as bases mesmas do Cristianismo; existiria um erro de cálculo que a Igreja só teria aceito após 1400 anos (cf. p. 78); daí o título do artigo: "Incorreção assumida". - Dada a maneira sensacionalista como o artigo é redigido, vamos dedicar-lhe as páginas seguintes, pondo em relevo o que há de certo e incerto a respeito da data do nascimento de Jesus.

Os dados da Tradição

1. A data do nascimento de Jesus não era nem é de importância decisiva para a pregação cristã. A existência real de Jesus sob os Imperadores César Augusto (27 a.C.- 4 d.C.) e Tibério (14-37 d.C.) consta a partir de documentos diversos,¹ independentemente da data precisa em que Jesus nasceu. O importante para o cristão é a existência histórica e real de Jesus no início da nossa era e a mensagem deixada pelo Senhor.

Os Evangelhos não tratam explicitamente da cronologia da natividade de Jesus. Isto se explica pelo fato de que os evangelistas não tinham a intenção de escrever relatos cronísticos ou biográficos (no sentido moderno destes termos); os Evangelhos são, sim, o eco da pregação dos Apóstolos, que se preocupava mais com a mensagem ou a Boa-Nova do que com questões científicas de cronologia.¹ Em conseqüência, temos, para calcular a data do nascimento de Jesus, apenas os seguintes textos:

Lc 2,1s: O recenseamento ordenado por César Augusto que provocou a ida de José e Maria a Belém, ocorreu enquanto Quirino era Governador da Síria.

Mt 2,16: Herodes mandou matar na Judéia todos os meninos de dois anos para baixo, a fim de atingir Jesus.

Lc 3,1: No ano 15º de Tibério César, João batizou Jesus.

Lc 3,23: Jesus iniciou seu ministério público com trinta anos de idade aproximadamente.

Jo 2,20: A restauração do Templo de Jerusalém iniciada por Herodes o Grande levou quarenta e seis anos, ou seja, de 18 a.C. até d.C.

2. Até Jesus Cristo, os pagãos conheciam diversos sistemas de cronologia. Havia

- a era das Olimpíadas, que começava a 1º/07/776 a.C.;

- a era dos Selêucidas (sírios); também dita "os anos gregos" (cf. 1Mc 1,10) a partir de 1º/10/312 a.C.

- a era da fundação de Roma ou era de Varrão, que contava os anos a partir da data do início da cidade de Roma (21/04/753 a.C. ou, depois, 1º/01/753 a.C.).

Após o nascimento de Jesus, os cristãos orientais, no século III, conceberam duas novas maneiras de contar os anos, partindo da presumida data da criação do mundo:

- a era alexandrina, inspirada pelo historiador Pandoro, que partia de 29 de agosto ou 1º de setembro de 5493 a.C.;

- a era bizantina, que começava a 1º de setembro de 5509.

Ainda uma corrente admitia a criação do mundo em 5507 (21 de março).

Estas últimas tentativas eram falhas, pois supunham que a Bíblia oferece uma cronologia do mundo e do gênero humano - o que é falso. Não é a partir das Escrituras que se pode calcular a idade do mundo e da humanidade.

Finalmente no século VI ou em 525 aproximadamente o monge Dionísio o Pequeno concebeu a computação que se tornou definitiva de então por diante. Eis o seu raciocínio: conforme Lc 3,1, Jesus iniciou a sua vida pública no 15º ano do reino de Tibério César (= ano 782 da fundação de Roma).¹ Ora, segundo Lc 3,23, "Jesus tinha mais ou menos trinta anos quando foi batizado" ou no início da sua pregação. Em conseqüência, Dionísio descontou de 782 (= ano 15º de Tibério) aos 29 anos completos de Jesus e chegou à conclusão de que Jesus nascera no ano de 753 da fundação de Roma. Por isto o ano de 753 ficou sendo o ano 1º da era cristã.

Como se vê, este cálculo é assaz sumário, não levando em conta todos os elementos fornecidos pelo Evangelho para estabelecer a data do nascimento de Cristo. A consciência deste erro não aflorou de imediato entre os estudiosos, mas havia de se tornar clara especialmente na época moderna, quando os pesquisadores da história são ciosos de exatidão.

O autêntico cômputo

Na verdade, o texto mais indicado para se estabelecer a data do nascimento de Cristo é o de Mt 2,16, onde se lê que Herodes, querendo exterminar Jesus, mandou matar todos os meninos de dois anos para baixo na Judéia. Ora Herodes morreu no anno de 749/750 de Roma ou no ano 4 a.C., segundo fontes fidedignas; donde se vê que Jesus nasceu antes de 4 a.C. ou entre 4 e 6/7 a.C. Os estudiosos tentam definir com mais precisão a data exata, mas ficam sempre no campo das hipóteses, pois a documentação bíblica e profana é insuficiente para chegar a mais rigor. - A título de ilustração, apresentamos algumas das sentenças propostas pelos historiadores:

ano de 742 a.U.c.¹ = 12 a.C.: sentença defendida por A. STENTZEL, Christus und sein Stern (Cristo e sua estrela). Hamburgo 1913; F. WESTBERG, Zur neutestamentlichen Chronologie, pp. 37-49.

744 a.U.c. = 10 a.C.: VAN BEBBER, Zur Chronologie des Lebens Jesu, Münster 1898, pp. 137-143; ARGENTIERI, Nuova determinazione della Cronologia neotestamentaria, Aquila 1914, pp. 5-9.

745/6 a.U.c. = a.C.: E. POWER, Biblica 9 (1928) p. 280.

746 a.U.c. = 8 a.C.: VILECKY, Quando Christus mortuus est? Pragae 1892, p.8.

746/7 a.U.c. = 8/7 a.C.: G. MACKINLAY, Expositor VIII/14 (1917 II), pp. 362-76.

747 a.U.c. = 7 a.C.: MANN, Of the true Years of the Birth and of the Death of Christ. London 1733, pp. 46. 75; D. HANEBER, Geschichte der Offenbarung. Regensburg 1876, p. 537; H.H. KRITZINGER, Der Stern der Weisen, Gütersloh 1911, pp. 98.. 104; O. GERHARDT, Der Stern des Messias, Leipzig 1922, pp. 105. 110; L. FONCK, Verbum Domini 7 (1927), p. 370.

747/8 a.U.c. = 7/6: W. BEYSCHLAG, Leben Jesu, Halle 1902, 1, 144; J. LEBRETON, La vie de Jésus-Christ, Paris 1931, pp. 868.

747/9 a.U.c. = 7/5 a.C.: DIDON, Jésus-Christ, Paris 1891, p. 390.448; L. MECHINEAU, Vita lesu Christi, Paris 1895, p. 28.

749 a.U.c. = 5 a.C.: NATALIS ALEXANDER, Historia Ecclesiastica 3 (1730), p. 74; J.H. FRIEDLIEB, Geschichte des Lebens Jesu, Breslau 1853, p. 91; P.F. HENRY, Les Deux Grandes Dates de l'Histoire, Avignon 1930, pp. 1-7; M. J. LAGRANGE, Synopse des quatre Evangiles, Paris 1927, p. 35; LAGRANGE, L'Evangile de Jésus-Christ, Paris 1928, p. 44.

752 a.U.c. = 2 a.C.: CH. E. CASPARI, Chronologisch-geographische Einleitung zum Leben Jesu, Hamburg 1869, p. 51; M. HETZENAUER, Theologische Quartalschrift 49 (1896), pp. 72-80; HENNEN, Pastor Bonus 44 (1933) p. 23s.

754 a.U.c. = 1 d.C.: K. HASE, Geschichte Jesu, Leipzig 1876, p. 209.

A vasta bibliografia sobre o assunto (da qual vai aqui citada apenas uma pequena parcela) bem mostra que o erro de Dionísio o Pequeno era do conhecimento dos cristãos muito antes que a imprensa tratasse do assunto em nossos dias. É de lamentar, pois, que a revista VEJA escreva no citado número, p. 79:

"É curioso observar que somente mais de 1400 anos depois do erro de Dionísio um Papa vem a público para denunciá-lo. Pio XII chegou a ensaiar alguns passos nessa direção, mas não foi adiante. O máximo que fez, foi encomendar pesquisas a estudiosos da Igreja".

Ora, a bibliografia apresentada evidencia que, muito antes de Pio XII (1939-1958), os estudiosos já tinham realizado numerosas pesquisas (na lista de obras atrás, a mais antiga data de 1730 e propõe a data de 749 a.U.c. = 5 a.C.). Sem dúvida, poderíamos recuar no tempo e descobriríamos novos escritos portadores de sentenças substitutivas à de Dionísio o Pequeno.

O fato de que um Papa antes de João Paulo II nunca abordou tal temática em audiência pública explica-se pela índole erudita do assunto; é próprio de pesquisadores dedicados às grandes interrogações da história. Além do mais, a data do nascimento de Cristo não pertence à substância da mensagem evangélica; pode ser discutida e contestada sem que o Credo seja afetado. Por conseguinte, carece de fundamento o alarde feito pela imprensa em torno do assunto.

Examinemos agora duas questões complementares sugeridas pelo citado artigo de VEJA.

A data de 25/12: por quê?

Visto que os Evangelhos não indicam o exato dia do mês em que Jesus nasceu, os cristãos tiveram que escolher eles mesmos a data mais oportuna para celebrar o seu nascimento. A escolha, feita no século III (se não antes), recaiu sobre o dia 25 de dezembro, já consagrado na vida do Império Romano pela "festividade do Natal do Sol invicto". Com efeito: os cultores do Sol (identificado, em vários lugares, com o Deus Mitra) celebravam naquela data o novo surto do Sol ou o alongamento dos dias após o declínio da luz solar no outono e no início do inverno (europeu). Assim, por exemplo, o Calendário do astrólogo Antíoco rezava no seu original grego: "Mês de dezembro... 25... Natal do Sol: cresce a luz"; o Calendário de Fúrio Filócalo registrava: "25 de dezembro, Natal do Sol Invicto". César Juliano recomendava os jogos que no fim do ano eram celebrados em honra do "Sol invicto". No século V, S. Agostinho explicava o costume já vigente, dizendo: "Festejamos este dia solene, não como os pagãos voltados para este Sol, mas voltados nós para aquele que fez este Sol" (sermão 190, 1 PL 38, 1007).

Desta maneira os cristãos quiseram "cristanizar" um dia festivo do Calendário pagão que apresentava certa afinidade com a celebração do nascimento de Jesus, que disse: "Eu sou a luz do mundo" (Jo 8,12).

Seria falso julgar que a festa cristã tem sua origem na mitologia pagã; as suas raízes estão na própria mensagem evangélica; apenas a escolha da data teve inspiração no Calendário dos romanos, pois Jesus Cristo é na verdade a Luz que os pagãos cultuavam voltados para o astro-sol.

Também não se deve crer que a escolha do dia 25 de dezembro tenha sido condicionada pela data de 25 de março (Anunciação do anjo a Maria); entre 25/03 e 25/12 correm, de fato, nove meses (correspondentes à gestação de Jesus). Mas parece que a celebração da Anunciação aos 25/03 é posterior à do Natal em 25/12, pois S. Agostinho (+ 430) é, segundo se crê, o primeiro autor que nos fala da Anunciação celebrada aos 25/03.

Aqui se põe ainda a pergunta: por que o Natal de Cristo tem data fixa, ao passo que a celebração da morte e ressurreição de Jesus é móvel de ano para ano?

Respondemos: a festa de Páscoa tem seu Calendário indicado pela própria Bíblia, ao passo que o Natal não (como vimos). Com efeito, o texto de Ex 12,1-14 determina que a Páscoa seja celebrada por ocasião da primeira Lua cheia após o equinócio da primavera (após 21/03); por conseguinte, a festa de Páscoa se prende ao ciclo da Lua, que não é o ciclo dos meses do nosso ano solar. Apenas é de notar que os cristãos, embora sigam basicamente a contagem prescrita em Ex 12, esperam sempre o domingo após a Lua cheia para celebrar a Páscoa, pois querem reproduzir a seqüência dos dias da semana, na qual Jesus morreu e ressuscitou, conforme os Evangelhos sinóticos.





A Data do Nascimento de Jesus - EB Parte 2

A fidelidade dos Evangelhos

Conforme o citado número de VEJA, p. 79, "a reconstituição da história de Jesus através dos textos dos Evangelhos, resulta imperfeita. "A figura ali descrita não é a de Jesus como ele era em si mesmo, mas aquilo que significava para as primitivas comunidades cristãs, para as quais os Evangelhos foram escritos", explica o pesquisador bíblico paulista Armando Tambelli".

Esta afirmação é inspirada pelo "Método da História das Formas" tal como foi cultivado por M. Dibelius e Rudolf Bultmann. Funda-se no princípio de que os traços teológicos do Evangelho tendentes a realçar a Divindade de Jesus e o caráter transcendental de sua obra não partiram dos lábios ou da pessoa de Jesus, mas resultam da interpretação subjetiva, quiçá arbitrária, que as primeiras gerações cristãs deram à figura de Jesus. O Jesus concebido pela fé não seria o Jesus que viveu outrora na Palestina; este terá sido uma figura mais pobre em predicados do que o Jesus "reconstruído" pela fé. Ora tal premissa racionalista é gratuita; nega de antemão a irrupção do transcendental neste mundo.

As escolas católicas de exegese admitem, sim, que no Evangelho se exprime a mentalidade teológica dos evangelistas e da Igreja (São João foi mesmo denominado "o Teólogo"). Jesus foi sendo mais e mais compreendido, como Ele mesmo predissera ao prometer o Espírito Santo (cf. Jo 14,26; 16,13-15)¹; todavia esse aprofundamento das palavras e dos gestos de Jesus Cristo não significa desvio ou "re-criação" da realidade histórica; antes transmite-nos a própria realidade histórica penetrada mais a dentro ou, com outra imagem, significa o desabrochamento da semente lançada pela pregação e pelos feitos de Jesus. Há, pois, identidade e continuidade entre Jesus histórico e o Jesus compreendido pela reflexão dos discípulos. - Ademais sob a inspiração do Espírito a fé católica ensina que os Evangelhos foram escritos sob a inspiração do Espírito Santo - o que implica isenção de erros ou deturpações no seu texto.

A propósito das principais datas da vida de Cristo e do respectivo contexto histórico, existe a exaustiva obra de URBAN HOLZMEISTER, Chronologia Vitae Christi. Romae 1933, obra da qual muito nos valemos na redação destas páginas.

¹ Para não falar de documentos cristãos, observamos que existem testemunhos de autores romanos (Tácito, Suetônio e Plínio o Jovem do início do século II) e de rabinos (Talmud), que atestam não somente a existência de Jesus, mas também a sua pregação e sua morte. Ver a propósito "Curso de Iniciação Teológica por Correspondência", módulo 3 (Caixa Postal 1362, 20001 - Rio, RJ).

¹ Isto não quer dizer que os Apóstolos negligenciassem a história (a qual é de importância capital para o Cristianismo); todavia não queriam ser cronistas, mas arautos da Boa-Nova de Jesus Cristo.

¹ O articulista de VEJA, nº citado, p. 78, afirma o seguinte: "O monge Dionísio partiu de uma premissa errada. Tibério já governava desde o ano 11, dividindo o poder com seu antecessor, Augusto, por este se encontrar doente. No ano 14 ele apenas assumiu integralmente o poder".

A teoria de que os anos de reinado de Tibério devem ser contados a partir de 11 ou 12 d.C. é contraditada pelos melhores autores. Baseia-se na analogia com o início do Império de Augusto, que pode ser calculado de diversas maneiras, pois Augusto foi fundado aos poucos a monarquia (fez parte de um Triunvirato a partir de 711, foi cônsul em 712, tomou a cidade de Alexandria em 724, recebeu o título de Augusto em 727...). Ao contrário, Tibério já encontrou a monarquia estabelecida; verdade é que foi associado a Augusto no fim do reinado de Tibério, segundo os antigos (quase unanimemente) é de 22 anos, 22 anos e meio ou 23, não mais; em outros termos: Tibério morreu em 37 após 22 ou 23 anos de governo, segundo os antigos - o que nos obriga a assinalar no ano 15 o início do governo de Tibério.

¹ a.U.c. = ab Urbe condita, desde a fundação da cidade (de Roma).

¹ Há mesmo passagens em que os evangelistas notam o progresso dos Apóstolos na compreensão dos dizeres e feitos de Jesus:

Jo 2,19-22:"Respondeu Jesus aos judeus: "Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei". Disseram-lhe então os judeus: "Quarenta e seis anos foram precisos para se construir este Templo, e tu o levantarás em três dias?" Ele, porém, falava do templo do seu corpo. Assim, quando ele ressuscitou dos mortos, seus discípulos lembraram-se de que dissera isso, e creram na Escritura e na palavra dita por Jesus".

Jo 12,14-16: "Jesus, encontrando um jumentinho, montou nele, como está escrito: "Não temas, filha de Sião! Eis que vem o teu rei montado num jumentinho!" Os discípulos, a princípio, não compreenderam isso; mas, quando Jesus foi glorificado, lembraram-se de que essas coisas estavam escritas a seu respeito e que elas tinham sido realizadas".



Lei de Moisés foi abrogada por Cristo - EB

Revista: "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

D. Estevão Bettencourt, osb

Nº 11, Ano 1958, p 454

5) "Se se afirma que a Lei de Moisés foi abrogada por Cristo, porque ainda se insiste na observância dos mandamentos do Decálogo?"Mesmo entre estes que é feito das prescrições concernentes ao sábado e às imagens? Qual é afinal o critério para se distinguir o que foi abrogado e o que ainda tem valor da lei?"
1. Antes do mais, na solução das questões acima, será preciso lembrar que as disposições concernentes a Israel no Antigo Testamento tinham caráter de preparação para a vinda do Messias - por conseguinte, caráter provisório e figurativo de realidade vindoura ainda mais rica de conteúdo. A escolha do povo de Israel não tinha outro sentido no plano de Deus senão o de criar, em meio à corrupção doutrinaria e moral crescente através dos séculos, um núcleo de fiéis que, nutrindo a crença e a esperança no verdadeiro Deus, se tornasse o receptáculo e transmissor das graças messiânicas para o mundo inteiro.

2. A fim de preservar eficazmente os israelitas da tendência a adotar os costumes e, conseqüentemente, as idéias das nações idólatras que os cercavam, o Senhor houve por bem dar-lhes, mediante Moisés, uma legislação ampla e pormenorizada, a qual entrando nos mais diversos setores da atividade do israelita, faria que este vivesse obedecendo continuamente a Deus (o regime era teocrático), recordado de que tinha uma missão religiosa a cumprir na história.

A Lei de Moisés, ampla como era, abrangia três tipos de preceitos: 1) prescrições civis e judiciárias, 2) prescrições rituais e litúrgicas, 3) prescrições morais.

1) A legislação civil e judiciária tinha por fim isolar o povo hebreu das demais nações, impedindo que se organizasse, política e socialmente, como os Estados pagãos toda a legislação civil de Israel eram assim uma muralha que, em última análise visava proteger a religião do povo de Deus. - Compreende-se que tais preceitos civis tenham perdido sua razão de ser logo que veio o Messias. Com efeito, Este qual Pastor universal, mandou os Apóstolos convocar os povos do mundo inteiro para integrarem a família dos filhos de Deus, abolindo desta forma o isolacionismo civil e nacional de Israel, que a Lei de Moisés fomentava.

2) As leis cerimoniais e litúrgicas de Israel tinham por objeto numerosos ritos (sacrifícios abluções, celebrações várias) dotados de valor simbólico e profético em relação ao Messias assim a circuncisão, o cordeiro de Páscoa, as festas anuais, etc. Estas instituições anunciavam, cada qual do seu modo, o Messias vindouro; por conseguinte, é claro que, após a vinda deste, perderam toda a sua razão de ser cederam ao povo culto instaurado por Jesus Cristo (cf. Hebr 5, 4-6 7, 18s; 8, 6s; 10, 1.14).

3) Quanto à legislação moral de Israel, ela compreendia uma série de preceitos de direito natural, condensados principalmente no Decálogo (1). Este, em verdade, não faz senão explicitar normas da lei natural, excetuado apenas o terceiro mandamento, que é, em parte, de direito natural e, em parte, de direito positivo divino; sim, de um lado é a lei natural que manda ao homem consagrar algum tempo ao serviço explicito do Criador (se, porém, determinar as ocasiões e a freqüência respectivas); foi, de outro lado, a vontade positiva do Divino Legislador que escolheu precisamente o sétimo dia para tal fim; e, diga-se logo, escolheu-o de acordo com a fé e a expectativa próprias do povo do Antigo Testamento, visando, mediante a observância do sábado, avivar nos judeus a crença na promessa de um Messias vindouro e da obra da Redenção que estava por se cumprir.

Ora, sendo o Decálogo (feita à ressalva acima) uma explicitação direta do direito natural, isto é, de exigências ditadas pela natureza humana mesma, entende-se que não tenha sido abrogado por Cristo; nem o podia ser, a menos que o Legislador Divino quisesse entrar em contradição consigo mesmo, retratando pela sua revelação positiva (no Evangelho) o que tivesse ordenado pela revelação natural. As prescrições do Decálogo eram, por conseguinte obrigatórias já antes de Moisés e não deixam de ter seu vigor ainda em nossos dias serão sempre atuais enquanto se propagar sobre a terra à natureza humana com suas notas essenciais (é por estas que o Criador fala). O Senhor Deus, no Antigo Testamento, promulgando explicitamente os mandamentos do Decálogo, visava apenas facilitar ao homem (tendente ao vício em conseqüência do pecado de Adão) o reconhecimento da voz da natureza e impedir que esta fosse ofuscada pelas paixões. Verifica-se mesmo que, longe de abrogar os preceitos naturais do Decálogo, Jesus Cristo se dignou aprofundar o seu sentido e valor, incutindo observância mais profunda e exata dos mesmos; o Salvador lembrou-nos, por exemplo, que a castidade não consiste apenas em uma conduta exterior (não cometer adultério), mas significa primariamente uma atitude interna da alma (nem sequer desejar adultério); da mesma forma dizia-nos o Senhor, a caridade, a justiça, a veracidade, etc. têm que se arraigar primeiramente no intimo do cristão para poder transparecer na sua conduta externa (cf. Mt 5, 17-48). Além disto, a fim de favorecer o fim colimado pelos preceitos do Decálogo, o Senhor Jesus propôs os chamados "conselhos evangélicos", ou seja, a renúncia espontânea a bens lícitos em vista de se conseguir mais desembaraçada união com Deus(cf. Mt 19, 3,29).
É por isto que o código de moral cristão continua a urgir a observância do Decálogo.

3. Mas, feitas estas observações, ainda restar abertas as questões particulares concernentes ao dia do Senhor (sábado ou domingo ?) e ao uso de imagens sagradas entre os cristãos.

a) Quanto à primeira dúvida, ela se dissipa à luz do que acima foi dito com referência ao terceiro preceito do Decálogo: os cristãos observam o que neste se deriva da lei natural, dedicando periodicamente algum tempo (um dia) ao serviço direto de Deus; o dia de guarda dos cristãos, porém, não é mais o sábado (ou o sétimo dia da mesma semana judaica) prescrito na Antiga Lei, pelo óbvio motivo que se segue: o sábado foi escolhido pelo Divino Legislador de Israel de acordo com o grau de Revelação religiosa que os israelitas possuíam; está claro que, para estes, o dia do repouso ou da interrupção dos trabalhos servis devia ser o dia em que conforme a linguagem figurada do Gênesis, Deus mesmo entrara no seu repouso, isto é, o sétimo dia após seis dias de trabalho que evocava as origens da história sagrada e excitava o anseio à plenitude dos tempos marcada pela vinda do Messias; era essencialmente função da espiritualidade do Antigo Testamento; observando-o, o judeu vivia a sua vida mística tão intensamente quanto possível dentro dos moldes da Revelação pré-cristã.

Eis, porém, que Cristo veio ao mundo como Autor de nova criação, por assim dizer, ou como Restaurador do gênero humano, o qual terminou sua obra no dia subseqüente ao sábado. Sim; Cristo passou o sábado judaico no silêncio do sepulcro para se manifestar, apresentando ao mundo a nova criatura (cf. 2 Cor 5, 17), logo após o dia de guarda dos judeus. Em conseqüência, os Apóstolos e as subseqüentes gerações cristãs entenderam que o dia do Senhor é atualmente o dia posterior ao antigo sábado; compreenderam que o domingo é o dia escolhido pela lei positiva de Deus no Novo Testamento, para se cumprir o preceito natural do culto do Senhor (cf. At 20, 7; 1 Cor 16 2 Apc 1, 10). Não se entenderia que os cristãos continuassem a observar o sábado, símbolo da primeira criação e da ordem de coisas pré-cristã, depois que o Autor do mundo se dignou recriar o homem e o universo, dando consumação ao seu plano no dia seguinte ao sábado. Mais amplas considerações sobre esta questão se poderão encontrar em "P.R." 1/1958, qu . 9.
b) Quanto à proibição do Decálogo referente ao uso de imagens, note-se que ela figura no texto sagrado do Antigo Testamento unicamente para assegurar o culto ao único Deus ou o monoteísmo em Israel; já que os judeus viviam cercados de povos que adoravam figuras feitas por mãos humanas, a Lei de Moisés quis preservá-los de tal erro, vedando-lhes a confecção de qualquer imagem.

Chama-nos a atenção, porém, o fato de que o próprio Deus, no A

Antigo Testamento mesmo, não hesitou em derrogar a esta proibição, ora mandando que seu povo ornasse a arca da Aliança e o templo de Jerusalém com estátuas de querubins esculpidas em madeira (cf. Ex 25, 17-22; 3 Rs 6,29s), ora ordenando a confecção da serpente de bronze (cf. Num 21,8s). A proibição de se usarem imagens, imagens que serviriam para elevar o espírito dos fiéis a Deus, era evidentemente de direito positivo e contingente; estava longe de se derivar das exigências da natureza humana como tal. Esta, ao contrário, tende a galgar a contemplação das realidades invisíveis mediante a observação das coisas visíveis. Compreende-se então que, uma vez passado o perigo de politeísmo e idolatria, havendo o gênero humano chegado à maturidade de espírito, o próprio Deus tenha suspenso a lei positiva do Antigo Testamento que vedava a fabricação de imagens; é o que a Tradição cristã entendeu desde os seus primeiros tempos, estimulada principalmente pelo fato de que Deus tomou face humana, bem sensível, na Encarnação. Os cristãos podem fazer (e fazem) uso reto e profícuo de figuras sensíveis, pondo-as, de acordo com a índole de sua natureza psico-somática, a serviço do seu sequioso de Deus, do único Deus.
Eis aqui uma mensagem do papa São Gregório Magno (+ 604) que bem atesta o valor catequético das imagens nas Igrejas:

"A imagem é para os analfabetos aquilo que a letra é para os que sabem ler; mediante as imagens os analfabetos aprendem o que devem imitar; as imagens são o livro de leitura dos analfabetos" (ep. IX 105, ed. Migne lat. 77, 1027).

Em conclusão, verifica-se que os cristãos observam o preceito do Decálogo referente ao monoteísmo, preceito que dimana da lei natural mesma, sem estar presos à sobrecarga positiva (não fazer imagens) que a Lei de Moisés acrescentou a tal mandamento; o acréscimo positivo tinha sua razão de ser no regime do Antigo Testamento; carece, porém, de fundamento no estado de coisas do Novo Testamento, em que já é lícito dar plena satisfação à índole psico-somática da natureza humana.

Também este assunto já foi abordado em "P.R." 4/1957, qu. 4.

(1) Seja aqui recordada a distinção que voltará ainda nas páginas seguintes, entre lei natural (ou direito natural) e lei positiva (ou direito positivo); ao passo que aquela é promulgada pela própria natureza, está é manifestada por uma declaração ou um decreto explícito do legislador, seja do Legislador divino (donde se tem a lei positiva divina), seja do legislador humano (donde a lei positiva humana).

A legislação natural é imutável, pois está fundada sobre a natureza das coisas, que não se muda. Ao contrário, a legislação positiva é mutável e abrogável, pois depende da livre vontade do legislador, que procura interpretar e aplicar a lei natural de acordo com as exigências contingentes do bem comum.

No caso acima, dir-se-á: as leis civis rituais de Israel pertenciam ao direito positivo divino, enquanto a legislação moral ou o Decálogo era de direito natural.





Os anos obscuros de Jesus - EB

Revista: "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

D. Estevão Bettencourt, osb

Nº 410 - Ano 1996 - p. 298
Em síntese: A Sra. Elizabeth Clare Prophet, guru norte-americana, há vinte anos vem estudando a vida de Jesus e julga poder afirmar; na base de manuscritos tibetanos, encontrados em 1887, que os dizeres de Jesus foram alterados pela Igreja e que Jesus esteve na Índia, no Nepal e no Tibé. Estas teses são desmentidas pela pesquisa dos próprios manuscritos do Novo Testamento, que são cerca de três mil, datados dos primeiros séculos do Cristianismo e reconhecidos pela crítica como fidedignos; o estudo desses manuscritos não permite dizer que houve truncamentos ou modificações substanciais dos mesmos. A hipótese de que Jesus esteve na Índia é desfeita em particular pelos textos de Mc 6, 3s e Mt 13, 55, como também pela tomada de consciência do gênero literário dos Evangelhos; estes não pretendem ser um relato biográfico, mas o eco escrito da pregação dos Apóstolos, que visavam a suscitar a fé dos ouvintes, sem deixar de referir fatos históricos (ver artigo seguinte deste fascículo).

A revista ISTO É, edição de 3/4/96, pp. 87s, publicou um artigo de Carla Gallo e Gisele Vitoria, que sintetiza o pensamento da Sra. Elizabeth Clare Prophet, guru norte-americana e sacerdotisa ecumênica, 54 anos de idade, que afirma ter Jesus vivido na Índia entre os treze e dezenove anos de idade como também após a sua crucifixão (da qual não terá resultado a morte do Crucificado).

O artigo está cheio de imprecisões ou mesmo erros, que serão apontados nas páginas seguintes.

1. A SRA. ELIZABETH E SUAS FONTES

A Sra. Elizabeth diz "ouvir a voz de Jesus desde garota"; Jesus a ajuda nas suas pesquisas religiosas. Adepta da reencarnação, afirma que já foi "Santa Marta, seguidora de Cristo, e Santa Clara". É doutrinado por outro mestre, o Conde de Saint-Germain, que viveu na França do século XVIII e atualmente é mensageiro da Era de Aquário (Nova Era), depois de ter sido outrora Bispo de Paris (século VI) com o nome de Saint-Germain; foi também, em encarnação anterior, São José, pai adotivo do próprio Jesus.
Elizabeth foi nomeada por Saint-Germain "mensageira da Grande Fraternidade Branca"; como tal, ela profere palestras, ensina mantras e orações, que ajudam a espalhar a chama violeta (energia que dá às pessoas maior percepção para entender os ensinamentos cristãos).

Peregrinou por diversas religiões no intuito de esclarecer seu dom sensitivo, quando, aos dezoito anos de idade, se fixou no esoterismo indiano.

As fontes que Elizabeth consulta para explicar a figura de Jesus, são polêmicos manuscritos tibetanos encontrados em 1887 pelo jornalista Nicolas Notovitch no mosteiro budista de Himis em Ladakh. Nesses pergaminhos Jesus teria o nome de Santo Issa, um jovem israelense que aos treze anos de idade teria partido secretamente da casa de sua mãe Maria em Jerusalém, com o objetivo de se preparar para cumprir a sua missão. "Lá os lamas lhe teriam ensinado a compreender os escritos sagrados, a curar com a ajuda da oração e a expulsar espíritos malignos dos corpos dos homens, "diz Elizabeth, citando os manuscritos. Conforme os pergaminhos, Jesus teria voltado para a Palestina, onde foi condenado pelo crime de heresia e crucificado. Apesar das coincidências, até hoje ninguém provou que de fato Santo Issa foi mesmo Jesus Cristo (art. citado, p. 87).
Mais: diz Elizabeth ainda que Jesus não morreu na cruz. "Os apóstolos deram-lhe um tipo de erva que fez com que ele parecesse morto", garante. "Depois de sobreviver ao martírio, diz o artigo citado, o filho de Deus teria voltado à Índia e lá vivido até os oitenta e um anos. Ao contrário do que prega a Igreja, Cristo não seria um adepto do celibato. Em Caxemira, onde teria vivido o resto de seus dias, Jesus se casou e teve filhos. 'Quem for à Índia e pesquisar entre as comunidades locais, poderá ter notícias dos descendentes de Cristo', diz Elizabeth".

Para a escritora norte-americana, o Novo Testamento pode ter omitido vários fatos e ensinamentos de Jesus por conta dos interesses da Igreja. "Roma quis manter o Messias debaixo de seus pés. Essa nova versão de sua história mostra que ele é universalista, não está limitado ao Cristianismo. Jesus abraçou o budismo, o hinduísmo e viu uma interação entre todas as religiões do mundo', diz Elizabeth. Esta autora considera ridícula a tese de que Cristo acumulou sabedoria dentro de uma carpintaria" (artigo citado, p. 88).

Elizabeth Prophet assegura que "as palavras de Cristo divulgadas até hoje não são fiéis. A intenção da líder espiritual é justamente trazer à tona os verdadeiros ensinamentos de Jesus" (artigo citado, p. 88).

2. UMA AVALIAÇÃO

1. A pessoa de Elizabeth Prophet é a de uma figura eclética, dada a revelações pessoais, contatos com o além mediante mestres espirituais. Isto a distingue da figura de um (a) intelectual, pesquisador (a) que trabalha em cima de raciocínios lógicos e de provas evidentes ou científicas. Elizabeth Prophet pode ter autoridade na área do esoterismo e do ocultismo, mas não a tem no setor dos eruditos pesquisadores da Bíblia. Aliás, nenhum destes, por mais anticristão ou anticatólico que seja, reconhece manuscritos tibetanos como fontes autênticas para estudar a figura e a doutrina de Jesus.

Pode-se perguntar se Elizabeth estudou a bibliografia grega, a síria, a copta, a armênia relativa a Jesus e datada dos cinco primeiros séculos da era cristã. Estas fontes são da máxima autoridade pela sua antiguidade e pela sua multiplicidade variegada.

2. A autora, aliás, parece conhecer muito pouco a história do texto do Evangelho, pois, segundo o artigo de ISTO É, "apenas quarenta anos depois da morte de Jesus, algumas comunidades cristãs primitivas começaram a escrever manuscritos que, traduzidos por lingüistas e historiadores dos séculos X e XI, deram origem ao Novo Testamento"; tal seria o modo de pensar de Elizabeth Prophet. - Ora esta proposição é totalmente descabida, pois existem manuscritos, ao menos fragmentários, do Novo Testamento datado dos séculos II e III; há outros bem mais conservados e extensos dos séculos IVN...Os críticos do texto grego comparam entre si os três mil manuscritos antigos do Novo Testamento e assim confeccionam edições fiéis do texto bíblico, sendo a melhor a de Aland, Black, Martini (The Greek New Testament. United Bible Societies, Nova lorque).

Mais: nos últimos anos têm sido descobertos papiros fragmentários de Mt (Mt 26, dez linhas) e Mc (Mc 6, 52s), que os pesquisadores chegam a datar de meados do século I. Em consequência, as datas de redação dos Evangelhos teriam que ser revistas em favor de maior proximidade de Jesus. Aliás, entre o Senhor Jesus e a redação dos Evangelhos não houve hiato, mas houve, sim, continuidade, pois a pregação do Evangelho nunca cessou; foi realizada primeiramente de viva voz pelos Apóstolos nas regiões da Palestina, da Síria, da Ásia Menor, e aos poucos foi sendo cristalizada por escrito em fragmentos, que são as unidades das quais se originaram os Evangelhos na sua integra ou na sua forma hodierna; cf. PR 399/1995, pp. 347-353; 288/1996, pp.194-200; 354/1991, pp. 482-494; 388/1994, pp. 386-395.

3.É prova de ignorância dizer que "0 Novo Testamento pode ter omitido vários fatos e ensinamentos de Jesus por conta dos interesses da Igreja... Roma quis manter o Messias debaixo de seus pés" (p. 88).

- Os escritos do Novo Testamento foram-se formando no século I independentemente da autoridade da Sé de Roma. {os Apóstolos e Evangelistas (Pedro, Paulo, João, Tiago, Judas, Mateus, Lucas, {Marcos} escreveram com sua autoridade de Apóstolos e Evangelistas, sem que houvesse conflito entre o Bispo de Roma (que seria Pedro ou algum dos seus sucessores: Uno, Cleto, Clemente...} e os autores sagrados)). Uma vez escritos, os textos do Novo Testamento foram copiados e recopiados, podendo-se acompanhar a história dos manuscritos existentes nas principais bibliotecas do mundo; o confronto desses manuscritos revela que não houve truncamento ou "censura" dos mesmos; eles são reproduzidos na sua íntegra com as variantes compreensíveis na obra de todo copista. É falso, portanto, admitir cortes, omissões, retoques nos textos sagrados para atender a interesses da Igreja dos primeiros séculos; só quem não conhece o assunto, pode ousar afirmar tal despropósito. É de notar ainda que os manuscritos do Novo Testamento não são propriedade exclusiva da Igreja; estão espalhados por diversas cidades do mundo, adquiridos por quem se pôde apoderar deles.
4. Mais absurda ainda se torna essa ousadia no caso da Sra. Elizabeth Prophet, que julga que Jesus foi limitado pela Igreja ao Cristianismo; na verdade " Jesus teria abraçado o budismo, o hinduísmo, e teria visto uma interação entre todas as religiões do mundo". Esta suposição da Sra. Elizabeth é insustentável, pois o Cristianismo e as religiões da índia são incompatíveis entre si pelo fato de que o Cristianismo é monoteísta ({professa que há um só Deus}, ao passo que o hinduísmo, o bramanismo e o budismo são panteístas ({afirmam que tudo é Deus}. Donde se vê que o ecleticismo de Jesus não seria lógico nem viável. - A Sra. Elizabeth não poderá "trazer à tona os verdadeiros ensinamentos de Jesus", se prescindir dos três mil códigos e manuscritos utilizados atualmente para se fazer a edição do Novo Testamento; não há acervo de testemunho do texto do Novo Testamento mais seguro e fidedigno do que o acervo utilizado pelos críticos que editam os Evangelhos e as epístolas do Novo Testamento; é tão volumoso e tão significativo esse acervo de manuscritos que dificilmente se conseguirá outro que o iguale em valor e autoridade.

5. Quanto à ideia de que Jesus tenha estado na índia, no Nepal e no Tibé, será discutida no próximo artigo deste fascículo, em que comentaremos a obra de um.