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domingo, 15 de abril de 2012

A Revelação Divina parte1

O que é?

REVELAR é remover um véu, isto é, fazer conhecer algo obscuro, oculto ou desconhecido. O homem pode revelar o que sabe. Deus pode revelar tudo o que quiser deixar conhecido.

A REVELAÇÃO DIVINA é a manifestação de Deus feita para nós de uma verdade que ilumine as nossas mentes de uma forma sobrenatural (S. Th. 2,2 q. 173 a. 3).

Com esta iluminação da mente, Deus nos comunica a verdade. Ele nos fala não apenas colocando conceitos na mente humana ou atingindo exteriormente nossos sentidos, mas também julgando com a luz divina conceitos que são apreendidos naturalmente.

Esta revelação é algo sobrenatural, enquanto supera a essência, as exigências e as forças da natureza humana e não lhe é devida.

Supera:

A) A essência. Posto que Deus quis dar-lhe a existência, o homem na sua essência, isto é, naquilo que é, tem direito aos bens inerentes à sua natureza humana (alma e corpo), mas não tem direito de ter em si uma vida divina, como a revelação lhe promete.

B) As exigências. O fim do homem é chegar a Deus, mas, segundo a simples natureza humana, poderia chegar, na medida do possível, com a inteligência e a vontade. Entretanto, a revelação lhe promete a visão de Deus face a face.

C) As forças. A simples razão humana pode conhecer as coisas divinas de uma forma muito limitada. Entretanto, com a revelação qualquer um conhece coisas que antes lhe eram desconhecidas e que então compreende, e outras coisas - os mistérios - dos quais não compreende a profundidade e a íntima substância, mas que, pela palavra de Deus, conhece pelo menos de algum modo.

Assim também nos meios para atingir seu fim sobrenatural, a natureza humana não tem forças suficientes, mas as encontra no que lhe dá a revelação.

A revelação se diz PÚBLICA quando é dirigida ao bem de todos homens, como aquela feita por meio dos patriarcas, dos profetas, e, finalmente, por meio de Jesus Cristo. Diz-se PARTICULAR quando é dirigida ao indivíduo, ainda que para o bem de muitos, como as revelações feitas a alguns santos.

Diz-se IMEDIATA quando Deus se revela diretamente por si ou por um anjo sem a assistência de um homem; diz-se MEDIATA quando nos manifesta a verdade por meio de um homem, como se fez através dos profetas (de modo mais exato, também seria mediada quando Deus usa o ministério de um anjo, mas aqui nós preferimos esta divisão da revelação feita diretamente do alto a partir daquela entregue por um homem, a quem Deus falou ou um ser enviado por Deus).

Erros contra a Revelação

Cada tese que tentaremos demonstrar tem uma conexão lógica com as outras. A verdade religiosa se apresenta como um edifício harmonioso em todas suas partes e uma não pode estar sem a outra.

Cada tese, no entanto, é diretamente contra os erros e por isso é necessário conhecê-los para que nos apareça seu sofisma e inconsistência frente à beleza e à verdade do ensinamento católico. Por isso, exporemos brevemente cada um tratado. Assim, a força da argumentação contra eles se destacará melhor.

OS PRINCIPAIS ERROS CONTRA A REVELAÇÃO se encontram em doutrinas que têm exagerado em dois sentidos opostos, enquanto que, às vezes, uma resulta da outra: a) ou com um pseudossobrenaturalismo negando toda capacidade e toda possibilidade da razão humana; b) ou com naturalismo absoluto admitindo apenas o que pode ser conhecido pela razão em si.

A) PSEUDOSSOBRENATURALISMO

I - O TRADICIONALISMO nega a capacidade da razão humana de conhecer a verdade religiosa e estabelece como único critério de verdade e de certeza a tradição oral do gênero humano.

Argumenta-se da seguinte forma:

No princípio era "a Palavra" (Jo 1:1), isto é, a Revelação. Sem esta "Palavra", não seria possível nenhum conhecimento acerca de Deus. Por isso, Deus a comunicou a Adão e foi transmitida até nós. Lamennais, um dos principais autores desta teoria (+ 1854), que se manteve, diferentemente de outros como De Bonal (+ 1840), Bautain (+ 1867), Bonnety (+ 1789), Ventura (+ 1861), que se submeteram e retrataram o erro depois da condenação da Igreja, considera a razão individual incapaz de chegar ao conhecimento natural de Deus. Entretanto, vê no consenso geral de todos povos uma confirmação da revelação à ideia de Deus. Este tradicionalismo rígido foi condenado pela Igreja (D.B. 1617).

O TRADICIONALISMO MITIGADO (Beelen, Schanz, Laforet, etc.), entretanto, não foi condenado. Ele não nega a capacidade da razão de conhecer a Deus, mas sustenta que ela precisa estar preparada para isso por meio da instrução. Na prática, todos povos, descendendo de uma única origem, à qual Deus fez a revelação, mesmo se enganando nas suas religiões, trouxeram estes conceitos da revelação primitiva.

Enquanto se mantêm dentro desses limites, desde que não afirmem que a revelação seja absolutamente necessária para alcançar o conhecimento natural de Deus (caso que seria contra o Concílio Vaticano I), não se opõem ao ensinamento católico. Ademais, é fácil distinguir se de fato traços da Revelação alcançaram todas as nações. Se por acaso não tivesse chegado a ninguém nada desta revelação, seria possível chegar ao conhecimento natural de Deus apenas com a razão.

II - O FIDEÍSMO exagera o papel da fé no conhecimento da verdade, negando que o objeto da Apologética seja a credibilidade, uma vez que seria impossível a demonstração: "é preciso acreditar sem provas", se diz.

Este erro de protestantes antigos foi reproposto e recolocado novamente em nossos dias com o existencialismo de Severino Kierkegaard e com a teologia dialética de Carlos Barth. Com grande desconfiança nas forças da inteligência humana, desconfia-se das provas racionais do Cristianismo, ou, pelo menos, tenta-se reduzi-las ao mínimo. Alguns católicos também sentiram o influxo dessas teorias. Daí a referência da encíclica "Humani Generis" (1950), que reafirma a possibilidade de "provar com certeza a origem divina da religião cristã com a única luz da razão" e que acusa de erros aqueles que "não aceitam o caráter racional dos sinais de credibilidade da fé cristã."

III - O LUTERANISMO também segue o fideísmo com um pseudossobrenaturalismo individual. Na verdade, ele admite a Bíblia como única fonte para conhecer as verdades da religião, interpretada individualmente com iluminação divina.

No lado oposto estão os erros do:

B) NATURALISMO ABSOLUTO

Podemos classificar os principais em:

1º RACIONALISMO. É um sistema que afirma o supremo e absoluto domínio da razão humana em todas áreas, submetendo ao seu controle todo fato e toda autoridade, incluindo o mundo sobrenatural e a própria autoridade de Deus. Este sistema tende a humanizar o divino quando não o elimina, ou a naturalizar o sobrenatural quando não o nega. Já nos primeiros séculos da Igreja, eunomianos, nestorianos e pelagianos seguiram este caminho, mas esse racionalismo estreito e exclusivo se desenvolveu no Humanismo com a valorização do homem e de sua razão acima de toda autoridade; concretizou-se no naturalismo de Bernardino Telesio, de Giordano Bruno, de Tommaso Campanella, e passou à construção subjetiva de Descartes até a Enciclopédia do século XVIII. O racionalismo nega, então, a Revelação e admite apenas o que a razão alcança.

2º AGNOSTICISMO. Nega a possibilidade ou a capacidade de conhecer alguma verdade: ignoramus, ignorabimus (não sabemos, não saberemos) é o seu lema. A palavra "agnosticismo" foi usada pela primeira vez pelo inglês Huxley.

O Agnosticismo se afirmou em correntes filosóficas:

a) Agnosticismo positivista (Conte, Littré, Spencer), que restringe o âmbito do conhecimento humano ao fenômeno e ao fato experimental. Fecha-se aos fatos e experiências, sem ir à origem das coisas, a Deus e à revelação, os quais julga incognoscíveis.

b) Agnosticismo kantiano, segundo o qual a única realidade objetiva para nós é o fenômeno (aquilo que aparece) que impressiona os nossos sentidos; a coisa em si (o númeno, aquilo que a coisa é) nos escapa e a razão a substitui com as suas formas, como Kant as chama: categorias a priori, que são subjetivas, isto é, antecedentes, independentes da experiência e inatas. Muito menos podemos com razão atingir a Deus, que transcende toda a natureza.

Kant diz: tenho a ideia de Deus, mas não posso demonstrar a realidade fora de mim (a crítica da razão pura). Mas, como um bom protestante, queria admitir a Deus, e então ilogicamente concluía que se pode e se deve admitir Deus por meio da vontade, como um postulado. (Crítica da razão prática) (Cf. PARENTE PIOLANTI - GAROFALO: Dizionario di Teologia per i laici - Ed. Studium, Roma 1949).

Na mesma linha de Kant se encontram Hegel, Fichte, e mais perto dos italianos Croce e Gentile, que em seu idealismo reduzem toda a verdade a um subjetivismo imanente a nós, excluindo a realidade objetiva das coisas. Portanto, para eles, Deus existe à medida que nós o pensamos, e não realmente em si mesmo.

3° MODERNISMO. Síntese de todas heresias, como chamou Pio X (cf. Encíclica "Pascendi" e decreto "Lamentabili", 1907). Partindo dos pressupostos filosóficos do positivismo kantiano, afirma que a revelação é a compreensão por parte do homem de sua relação com Deus. O Cristianismo não é mais um complexo de dogmas imutáveis, ​​de valor objetivo absoluto, que nos vêm de uma revelação objetiva externa e ao qual damos assentimento individual. Isso não é senão o sentimento do divino que surge do nosso subconsciente. Assim, o dogma é apenas a expressão provisória da nossa subconsciência e está sujeito a uma contínua evolução.

O crítico, como tal, pode negar aquilo que admite como crente.

O Modernismo teve como principais autores na França Leroy e Loisy; Tyrrell na Inglaterra; na Alemanha, Scheli; na Itália, os autores do "Programa dos modernistas" e Bonaiuti.

4° ONTOLOGISMO. Diz que podemos alcançar essas verdades com a nossa intuição.

Contra esses erros, eis as teses que se seguem:

Possibilidade da Revelação

TESE - É possível, e aliás conveniente, a Revelação Divina não apenas das verdades naturais, mas também das verdades sobrenaturais, até mesmo dos próprios mistérios.

FILOSOFICAMENTE É CORRETO

TEOLOGICAMENTE É DE FÉ

(Veremos em seguida o que significa de fé; a partir daqui, enquanto estudando à luz da razão humana, examinaremos qual é o pensamento católico frente a essas verdades.)

PROVA I

A) É POSSÍVEL POR PARTE DE DEUS, já que Deus pode revelar,

a) fisicamente. Sendo infinitamente sábio e onipotente, pode manifestar ao homem coisas que estes não sabem, tanto com imagens internas como atingindo externamente nossos sentidos. Pode fazê-lo imediatamente por si, bem como servindo-se de um homem.
b) moralmente. A revelação não anula sua majestade. Ao contrário, é conveniente, pois ilumina o homem para atingir seu fim, que é Deus; por fim a revelação é direta à glória de Deus.

B) POR PARTE DO HOMEM. Este, para praticar a religião, como é seu dever, poderá fazê-lo melhor enquanto conhece mais o que Deus ensina e quer. Com a revelação, conhece com maior perfeição e exatidão aquilo que Deus quer dele.

Também não se diga que submetendo-se a Deus, o homem diminui a dignidade e a autonomia de sua razão, que aliás é enobrecida, porque recebe o ensinamento daquele que é a Suma Sabedoria. A sua palavra veraz dá a garantia máxima da verdade. Assim, com a liberdade de fazer uma escolha, é preciso saber o que escolher. Perante dois baús fechados, não sei qual contém um tesouro, ou coisas inúteis. Quanto mais sei, melhor poderei escolher, sendo ainda livre para pegar o baú sem valor, se quisesse. Mas eu seria um tolo se recusasse o tesouro.

Assim, a razão, se iluminada por aquele que é a luz que ilumina todo homem, escolherá livremente com maior sabedoria e, portanto, com maior dignidade.

II - ALGUMAS VERDADES NATURAIS. O homem, na limitação de sua inteligência, tem um campo muito estreito também no conhecimento das verdades de ordem natural. Muitas vezes também comete muitos erros na busca de tais verdades! Por isso, não é nem um pouco incompatível que Deus as manifeste a ele para a realização mais fácil de seu fim. Através do conhecimento seguro delas, o homem chega a conhecer melhor a Deus também naquelas coisas que alcançaria com apenas as forças da inteligência humana.

III - TAMBÉM ALGUMAS VERDADES SOBRENATURAIS, OU MELHOR, ALGUNS MISTÉRIOS.

Mistério é algo arcano, secreto. Existem também muitos mistérios na natureza. Por exemplo, sabemos que movendo um dínamo se produz eletricidade. Sabemos quais são os efeitos da luz, do calor, do movimento. Mas nós sabemos o que é a eletricidade? É um mistério da natureza, e há incontáveis. Muito mais na revelação. "Em sentido amplo se chama mistério uma verdade conhecida apenas pela Revelação, e compreensível, depois dela, por parte da razão. Por exemplo: a criação do universo no tempo." (M.J. Scheeben: I Misteri del Cristianesimo, Trad. Gorlani, Morcelliana 1949, p. 9).

Em sentido estrito, o mistério é uma verdade, cuja existência, sem fé na palavra de Deus, a criatura não pode ter certeza, ou melhor, não pode representar e compreender o conteúdo diretamente, mas apenas indiretamente, comparando-o com coisas de outra natureza (PARENTE - PIOLANTI - GAROFALO op. cit.).

Geralmente, outros autores definem, com expressão mais fácil, o mistério como uma verdade que é sabida existir, mas não se sabe como existe. Mas preferimos a definição mais difícil em sua linguagem técnica por ser mais exata e completa. De fato, a obscuridade do mistério não consiste apenas em não saber como seja, mas, antes que nos seja revelado, não sabemos nem que existe.

A Igreja estabeleceu o significado da palavra mistério no Concílio Vaticano I (Sess. III. 4): "Os mistérios divinos por sua própria natureza transcendem de tal modo o intelecto criado que, embora revelados e cridos, ficam contudo velados e obscuros durante a vida mortal."

Por isso, na definição se diz que a criatura não pode representar e compreender o conteúdo diretamente, mas apenas de forma indireta, comparando-a a algo de outra natureza. Isso se diz conhecer por analogia.
Quando anos atrás um viajante trouxe do Oriente a planta de lótus com os seus frutos que o povo comumente chama de "caqui", se ele tivesse falado antes que os ocidentais a tinham visto podia lhes dizer: "o tronco daquela árvore é feito de tal modo e se assemelha a tal planta; as folhas são semelhantes àquelas das tais plantas, o fruto na cor e forma é quase como uma laranja, mas a casca é muito mais suave e o interior mais polposo, etc." O que teriam entendido? Se faria uma ideia aproximada, comparando-o à planta de outro gênero, mas não teriam tido a ideia precisa. Então um dia falando sobre cores com um cego nato, essa pessoa me disse que pensava o vermelho como um som forte de trombeta. Ele, sempre cego de nascença, não podia ter a ideia exata da cor: somente com as notícias que ele pôde apreender, comparando com coisas de outra natureza, os sons, que ele conhecia, formava uma ideia de que no vermelho, diferentemente de outras cores, havia algo forte que atingia com maior intensidade no olho de quem podia ver, como o som de uma trombeta atinge com maior intensidade o ouvido, mais do que o som de um violino ou de uma flauta

A Revelação Divina parte2 final

Se na ordem da natureza das coisas criadas, tanta coisa permanece velada para quem não percebe diretamente, mas apenas através de uma comparação, pensamos em quão profundos e obscuros serão os mistérios que se referem a Deus! Por isso, embora revelados, a razão humana não poderá penetrar inteiramente em sua essência, nem demonstrá-los intrinsecamente. Porém, mesmo conhecida alguma coisa de sua essência, de acordo com a fraqueza da inteligência humana, será uma nova riqueza incomparável à nossa mente, tanto no campo da verdade quanto nas consequências práticas que derivam desta luz de vida.

Os mistérios não podem ser demonstrados pela razão, mas pode-se demonstrar que não a contrariam. O mistério está acima, não contra a razão. Deus, Verdade substancial, é o autor da fé e da razão, e não pode haver contradição entre fé e razão.

Dizer que na religião há mistérios que superam a inteligência humana não é colocar um obstáculo à grandeza de nossa Fé. É, ao contrário, confirmar que nossa religião é divina. É mais que lógico existirem mistérios. Se não existissem, igualaríamos a nossa mente com a de Deus, que é um absurdo. A mente de Deus é infinita e a nossa pequena inteligência não pode cobrir sua infinita sabedoria. Por fim no Paraíso, enquanto muitos mistérios nos serão completamente revelados, outros - aqueles que envolvem a vida íntima de Deus, como, por exemplo, o mistério da Santíssima Trindade - serão conhecidos mais ou menos por cada um de acordo com o grau de glória, de forma a satisfazer plenamente a inteligência dos beatos, mas os poderá compreender de modo completo.

Em um copo não pode entrar toda a água do mar. Muito menos na nossa pequena inteligência se pode compreender a infinita sabedoria de Deus.

A REVELAÇÃO DAS VERDADES SOBRENATURAIS E DOS PRÓPRIOS MISTÉRIOS é possível, aliás, muito conveniente:

a) por parte de Deus, que pode, como por outras verdades, nos manifestar essas, inacessíveis à razão humana, sendo infinitamente Sábio e Onipotente.

b) por parte do homem que vem a conhecer com certeza a verdade a qual a sua inteligência não podia atingir. Chega a conhecer pelo menos a existência dos mistérios e por meio destas verdades pode encaminhar sua vida com mais segurança em direção ao último fim, do modo querido por Deus.

Necessidade da Revelação

Devemos mostrar esta necessidade:

Iº com respeito às verdades divinas e acessíveis à razão humana,

IIº com respeito aos mistérios.

I TESE - No estado atual do gênero humano, as verdades divinas, também aquelas por si acessíveis à razão, para serem conhecidas por todos, com firme certeza e sem erros, requerem moralmente uma revelação (Conc. Vat. I D.B. 1786).

EXPLICAÇÃO: Explicamos os termos:

NO ESTADO PRESENTE DO GÊNERO HUMANO: trata-se da condição sob a qual se encontra o gênero humano após o pecado, com as suas paixões, a sua fraqueza. Trata-se da humanidade no seu complexo, não de um só indivíduo singularmente.

AS VERDADES DIVINAS: é possível que um homem com seu estudo possa vir a conhecer alguma verdade divina. Aliás, nas páginas anteriores já mostramos que as verdades fundamentais podem ser alcançadas passando-se do conhecimento das coisas visíveis ao das coisas invisíveis, conhecendo-se quem é o Autor. Mas aqui falamos do conjunto de todas verdades que por si seriam acessíveis à razão humana.

TAMBÉM AQUELAS POR SI ACESSÍVEIS À RAZÃO: não se trata de verdades que se podem conhecer somente se manifestadas por Deus, mas daquelas que a razão humana poderia alcançar com suas próprias forças.

PARA SEREM CONHECIDAS POR TODOS: Mesmo que um só indivíduo pudesse colocar-se ao estudo de todas verdades religiosas acessíveis à razão, a maioria dos homens não teria meios, quer pela falta de tempo, quer pela inteligência e preparação cultural, quer pelas ocupações e necessidades da vida. No entanto, todos homens têm necessidade absoluta de conhecer as verdades divinas com firme certeza. Mesmo depois de longo estudo feito pelas mentes mais ilustres, nem todas verdades poderiam aparecer à mente com a segurança que é necessária para as verdades que interessam a toda a nossa existência. Temos a prova nos estudos dos maiores filósofos pagãos. Por exemplo, Platão, em seu Fédon, relata a demonstração feita por Sócrates sobre a imortalidade da alma; ademais, o grande filósofo tem algumas incertezas sobre este assunto de importância vital.

E SEM ERROS: os próprios filósofos pagãos em busca das verdades de ordem natural não só tiveram algumas incertezas, mas caíram em erros reais. Muito mais ainda cairá um homem desprovido de cultura.

REQUEREM MORALMENTE UMA REVELAÇÃO: é dita necessidade moral aquela que não exclui outras possibilidades, mas que é praticamente indispensável e da qual não se pode prescindir. Assim, por exemplo, para desenhar um círculo perfeito não é absolutamente impossível traçá-lo a mão livre, mas na prática será necessário o compasso ou outro instrumento para que ele possa ficar perfeito. Tenho necessidade moral deste instrumento.

A revelação é moralmente necessária para que os homens tenham facilidade de alcançar seu fim último.

Esta tese é contra o naturalismo.
PROVA. A tese é comprovada por um argumento um histórico e um psicológico.

A) - ARGUMENTO HISTÓRICO. A História nos mostra que a humanidade por si só não soube alcançar as verdades éticas e religiosas sem cair nos erros mais graves tais como o politeísmo, a idolatria, a poligamia, os ritos cruéis e obscenos, etc. Com exceção da afirmação comum da existência de um poder supremo do qual o homem depende, as outras verdades religiosas foram quase todas falsificadas e alteradas em várias populações. Apesar de toda a brilhante cultura grega e as sublimes especulações de Platão e Aristóteles, a religião dos gregos se degenera em mitologia pueril e imoral.

Os próprios gregos mesclam graves erros às verdades objetos de sua especulação: o desprezo da família em Platão, e o não reconhecimento da dignidade humana, admitindo a escravidão, em Aristóteles.

A humanidade abandonada às suas próprias forças e considerada fora do Cristianismo nunca chegou ao pleno conhecimento da religião natural, substancialmente única para todos homens, e isso por uma impossibilidade moral, se não uma impossibilidade física e absoluta.

B) - ARGUMENTO PSICOLÓGICO. Já São Tomás de Aquino (Contra Gentiles i c. 4) elencava as dificuldades que a humanidade encontra para resolver o problema religioso. Pode-se resumir nos três pontos seguintes:

1) - Dada a dificuldade que a mente tem de chegar à verdade e a condição da maioria dos homens, apenas uma minoria pode aspirar ao conhecimento dessas verdades, e com muitas incertezas e erros.

2) - Essa minoria não pode ser um guia para todos homens.

3) - Disso decorre que a maior parte da humanidade é moralmente incapaz de alcançar o conhecimento da religião e, portanto, é moralmente necessária uma revelação divina, de modo que os homens possam facilmente chegar a seu fim último.

II TESE - A Revelação divina é absolutamente necessária em relação aos mistérios sobrenaturais, dada a hipótese de nossa elevação à ordem sobrenatural.

PROVA - Já mostramos que as forças humanas por si não podem alcançar o conhecimento dos mistérios sobrenaturais. Não somente não sabem penetrar na essência como não podem conhecer nem a existência. Ora, se Deus em sua infinita bondade eleva o homem a um fim sobrenatural, isto é, a participar da sua própria vida divina, tal elevação requer que o homem conheça verdades sobre a vida íntima de Deus, isto é, os mistérios propriamente ditos. Se Deus tivesse constituído o homem apenas em uma ordem natural, bastaria conhecê-lo e chegar a ele de um modo natural, somente com as forças humanas: a inteligência, a vontade e o conhecimento dele através daquilo que admiramos nas obras de sua criação. Nesta ordem natural, uma Revelação divina teria sido conveniente e útil, mas não necessária. Em vez disso, dada a hipótese de que Deus nos tenha querido e constituído em uma ordem sobrenatural, até a realização suprema da visão beatífica em que o veremos face a face, como Ele é em sua essência divina (conhecer a Deus em si mesmo, em sua divindade, como dizem os teólogos), não basta mais o conhecimento de Deus através das coisas criadas, onde há um raio do Criador, onde Deus expressou algo de si mesmo e de sua glória, mas onde não é narrada contada sua vida íntima. Dada esta hipótese, não podendo por isso o homem conhecer com suas próprias forças os mistérios da vida divina de modo que possa alcançar o seu fim, é necessário que Deus os manifeste.

Por isso é necessária a Revelação para conhecer a existência desses mistérios, e, a fortiori, é necessária para compreender algo da sua essência.

O Fato da Revelação

Dada a conveniência e necessidade de uma revelação, o homem não pode permanecer indiferente ao fato da revelação. Ela o toca intimamente, e não lhe diz respeito apenas aos fatos desta vida que passa, mas se projeta sobre seus destinos eternos, isto é, à chegada ao fim, que é por se dizer a chegada à sua felicidade.

Historicamente, muitas religiões se apresentam como a Religião Revelada.
É INDIFERENTE SEGUIR UMA OU OUTRA?

ENTRE ESSAS, QUAL É A QUE FOI VERDADEIRAMENTE REVELADA POR DEUS?

Em outras palavras, o homem não pode ficar indiferente ao dizer: por mim, haver ou não uma religião revelada é a mesma coisa; ou: entre tantas religiões que se dizem reveladas, para mim, seguir uma ou outra é indiferente.

Por isso, seguem as duas teses:

I TESE - Dada a necessidade moral de uma religião revelada, cabe a cada um a séria obrigação de procurar qual seja ela e de abraçá-la quando a encontrar.

É CORRETO

contra os racionalistas.

PROVA:

A) - PELO RESPEITO DEVIDO A DEUS - Se Deus revelou, Ele fez isso para que os homens, para o seu bem, conhecessem estas verdades. Por isso, eles têm a séria obrigação de procurar, de conhecer o que Deus revelou, e de seguir esses ensinamentos e mandamentos que Deus deu.

B) - PARA ALCANÇAR O NOSSO FIM. Para que todos homens possam conhecer prontamente, com certeza e sem erros o complexo das verdades que constituem a religião natural é moralmente necessária uma revelação divina; é ainda mais absolutamente necessária para as verdades sobrenaturais. Conhecendo todas essas verdades, o homem conhece também os meios apropriados para alcançar seu fim. Por isso, para conhecer esses meios, deve conhecer estas verdades e deve colocá-las em prática.

II TESE - O homem não pode professar qualquer religião que se diga revelada, mas é necessário buscar e abraçar a religião verdadeira.

Contra os imanentistas, os modernistas e os indiferentistas.

PROVA: Ao estudar as religiões historicamente, encontramos muitas que se dizem reveladas. Um erro que frequentemente se ouve repetir nos nossos dias é este: "Todas religiões são boas." Este erro surgiu especialmente a partir da comunidade de pessoas que se encontram no mesmo país, com religião diferente; encontros hoje muito frequentes por causa da velocidade das comunicações. Muitas vezes a impressão também é maior, porque alguns não católicos observam sua religião com maior precisão do que fazem alguns católicos. Não é a observação de uma doutrina que a torna verdadeira. Um viajante que caminha numa estrada errada pode correr mais rapidamente do que outro que mal caminha ou para na estrada certa. O segundo está na estrada que o levaria à chegada prefixada, enquanto o primeiro, mesmo correndo, não vai em direção ao destino.

Assim também não se deve confundir a vontade salvífica de Deus para aqueles que estão no erro, dizendo que também eles estão no caminho da verdade. Aqueles que estão em uma falsa religião, se estão sem sua culpa acreditando estar na verdade e agem segundo a honestidade natural, na prática têm a vontade de observar o que Deus ordena; com um desejo inconsciente são orientados à religião verdadeira, embora não a conheçam, e assim Deus lhes providenciará a sua salvação eterna. Mas dizer que eles podem se salvar, dizer que estão na verdade, há uma diferença substancial.

A verdade não pode ser senão uma. Quando nas diferentes religiões que se dizem reveladas por Deus encontro algumas afirmações em contradição com o que outras dizem, concluo que a verdade não pode estar senão de um lado. Se, por exemplo, digo que agora é dia e outro diz que é noite, é certo que ambos não podemos ter razão. Assim, se uma religião me afirma que Deus revelou a existência do Purgatório, ou que os sacramentos são sete, e uma outra religião me nega isso, absolutamente não pode ser que uma e outra tenham razão. Ou Deus ensinou de uma forma ou de outra. Não pode ter revelado que uma coisa existe e ao mesmo tempo não existe.

Assim, a religião revelada não pode ser senão uma só.

É por isso que no movimento de Oxford que proclamou uma série de conferências entre as seitas protestantes para encontrar um entendimento comum, a Igreja Católica foi a única a não participar.

O acordo devia consistir nisto: que se uma Igreja acreditava, por exemplo, em dois sacramentos e uma outra, em cinco, se poderia fazer um meio-termo admitindo-se, por exemplo, três. A Igreja Católica naturalmente foi acusada de intransigência. Mas como fazer chegar a um acordo sobre uma determinada verdade de fé? Quando se trata de uma regra disciplinar, algumas mudanças poderiam ser feitas. Desse modo, de fato, a Igreja Católica mudou, por exemplo, a lei do jejum de acordo com as necessidades dos tempos, mas nunca poderia eximir os homens da ordem dada por Jesus Cristo para fazer penitência: "Se não fizerdes penitência, todos perecerão igualmente." (Lc 13:5). Da mesma forma, se Jesus Cristo instituiu sete sacramentos, nem mais nem menos, não pode a Igreja, a fim de agradar aos outros, dizer que instituiu seis, nem dizer, por exemplo, a quem não crê na virgindade de Maria Santíssima, nem à existência do Purgatório: "Vós admitis comigo uma destas verdades, e eu renuncio convosco a crer em outra." Uma religião que age assim, admitindo ou desaprovando a bel-prazer aquelas verdades em que se deve crer ou não, se mostra falsa por si própria: não são necessários outros argumentos para demonstrar que segue aquilo que pensam os homens e não aquilo que Deus revelou. É Deus que revela e os homens devem seguir o que Deus revelou. Não cabe aos homens mudarem a bel-prazer o que Deus nos fez conhecer.

O que dissemos indica claramente que entre as religiões que se dizem cristãs, uma só pode ser aquela revelada por Deus.

A fortiori, as outras religiões, que afirmam coisas todas diversas da religião católica, não podem ser verdadeiras, caso contrário, Deus teria dito e contradito uma mesma coisa ao mesmo tempo. Isso é repugnante à sua forte Sabedoria e Verdade.
** Extraído da "Somma di Teologia Dogmatica" de padre Giuseppe Casali

Traduzido para o Veritatis Splendor por Marcos Zamith do original disponível em http://christusveritas.altervista.org/teologia_dogmatica_rivelazione_divina.htm


Confissão

Todos os nossos pecados – passados, presentes e futuros – são perdoados de uma vez por todas quando nos tornamos cristãos? Não, de acordo com a Bíblia ou com os primeiros Padres da Igreja. A Escritura não afirma em nenhum lugar que os nossos pecados futuros são perdoados. Ao contrário, Ela nos ensina a orar: "E perdoai-nos as nossas dívidas, como nós também temos perdoado aos nossos devedores." (Mt 6:12).

O meio pelo qual Deus perdoa pecados depois do batismo é a confissão: "Se reconhecemos os nossos pecados, (Deus aí está) fiel e justo para nos perdoar os pecados e para nos purificar de toda iniquidade." (1Jo 1:9). Pecados menores ou veniais podem ser confessados diretamente a Deus, mas para pecados graves ou mortais, que esmagam a vida espiritual da alma, Deus instituiu um meio diferente para obter perdão: o sacramento conhecido popularmente como confissão, penitência ou reconciliação.

Este sacramento está enraizado na missão que Deus deu a Cristo como o Filho do Homem na terra para ir e perdoar pecados (cf. Mt 9:6). Assim, a multidão que testemunhou esse novo poder "glorificou a Deus por ter dado tal poder aos homens." (Mt 9:8; observe o plural "homens"). Depois da Sua ressurreição, Jesus transmitiu Sua missão de perdoar pecados aos seus ministros, dizendo-lhes "Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós... Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos." (Jo 20:21–23).

Visto que não é possível confessar todas as nossas muitas faltas diárias, sabemos que a reconciliação sacramental é necessária apenas para pecados graves ou mortais – mas é necessária, senão Cristo não teria ordenado isso.

Ao longo do tempo, mudaram as formas que o sacramento foi administrado. Na Igreja primitiva, pecados publicamente conhecidos (como apostasia) foram muitas vezes confessados abertamente na igreja, embora a confissão privada com um sacerdote fosse sempre uma opção para os pecados cometidos particularmente. Ainda assim, a confissão não era apenas algo feito em silêncio a Deus por si só, mas algo feito "na igreja", como o Didaqué (70 d.C.) indica.

As penitências também tendiam a ser executadas antes e não após a absolvição, e elas eram muito mais rigorosas que as de hoje (penitência de dez anos para o aborto, por exemplo, era comum na Igreja primitiva).

Mas o básico do sacramento sempre esteve lá, conforme revelam as citações seguintes. De especial significado é seu reconhecimento de que a confissão e a absolvição devam ser recebidas por um pecador antes de receber a Sagrada Comunhão, porque "todo aquele que... come o pão ou bebe o cálice do Senhor de forma indigna será culpado por profanar o corpo e o sangue do Senhor. "(1Cor 11:27).

A Didaqué

"Confessa teus pecados na igreja e não eleves tua oração com uma consciência má. Este é o modo de vida... No Dia do Senhor reuni-vos juntos, parti o pão e dai graças, depois de confessares tuas transgressões para que teu sacrifício possa ser puro." (Didaqué 4:14, 14:1 [70 d.C.]).

A Carta de Barnabé

"Vós deveis julgar retamente. Vós não deveis fazer um cisma, mas deveis pacificar aqueles que lutam por trazer-vos reunidos. Vós deveis confessar vossos pecados. Vós não deveis ir à oração com uma consciência má. Este é o caminho da luz." (Carta de Barnabé 19 [74 d.C]).

Inácio de Antioquia

"Para que todos quantos são de Deus e de Jesus Cristo estejam também com o bispo. E tantos quantos devam, no exercício de penitência, retornar para a unidade da Igreja, estes, também, devam pertencer a Deus, que eles possam viver de acordo com Jesus Cristo." (Carta aos Filadelfienses 3 [110 d.C.]).

"Porque onde há divisão e ira, Deus não habita. A todos eles que se arrependem, o Senhor concede perdão, se eles apresentam penitência para a unidade de Deus e a comunhão com o bispo." (idem, 8).

Ireneu

"[Os discípulos gnósticos de Marcos] têm iludido muitas mulheres... Suas consciências têm sido marcadas como acontece com um ferro quente. Algumas dessas mulheres fazem uma confissão pública, mas outras ficam envergonhadas de fazer isso, e, em silêncio, como se retirando de si mesmas a esperança de vida de Deus, elas apostatam inteiramente ou hesitam entre os dois cursos." (Contra as Heresias 1:22 [189 d.C.]).

Tertuliano
"[Com relação à confissão, alguns] fogem deste trabalho como sendo uma exposição de si mesmos, ou eles adiam de dia para dia.

Hipólito
"[O bispo conduzindo a ordenação do novo bispo deve orar:] Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo... Derrame agora o poder que vem de Vós, do Vosso Espírito real, que destes ao Vosso amado Filho, Jesus Cristo, e que Ele deu aos seus santos apóstolos... e concedei a este Vosso servo, que Vós escolhestes para o episcopado, [o poder] para alimentar Vosso rebanho sagrado e para servir sem culpa como Vosso sumo sacerdote, ministrando dia e noite para propiciar incessantemente diante de Vosso rosto e para oferecer-Vos os dons da Vossa santa Igreja, e pelo Espírito de sumo sacerdócio ter a autoridade para perdoar pecados de acordo com Vosso mandamento." (Tradição Apostólica 3 [215 d.C.]).
Orígenes

"[Um método final de perdão], embora difícil e trabalhoso, [é] a remissão dos pecados por meio da penitência, quando o pecador... não se retrai de declarar seu pecado a um sacerdote do Senhor e de buscar remédio, após a forma dele que diz: 'Eu disse, "Ao Senhor acusar-me-ei de minha iniquidade"'" (Homilias sobre Levítico 2:4 [248 d.C.]).
Cipriano de Cartago

"O apóstolo [Paulo] da mesma forma dá testemunho e diz: ‘... Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do sangue do Senhor." (1Cor 11:27]. Mas [o impenitente] repele desdenhosamente e despreza todos esses avisos; antes de que seus pecados sejam expiados, antes de que eles tenham feito uma confissão de seus crimes, antes de que sua consciência tenha sido purgada na cerimônia e às mãos do sacerdote... eles fazem violência ao corpo e sangue [do Senhor], e com suas mãos e boca pecam contra o Senhor mais do que quando O negavam" (Os Decaídos 15:1–3 (251 d.C.]).

"De fé bem maior e temor salutar são aqueles que... confessam seus pecados aos sacerdotes de Deus de uma maneira franca e na tristeza, fazendo uma declaração aberta de consciência... Eu vos suplico, irmãos, que todos que pecaram confessem seus pecados enquanto ainda estão neste mundo, enquanto sua confissão ainda é admissível, enquanto a satisfação e a remissão feita através dos sacerdotes ainda são agradáveis diante do Senhor." (idem., 28).

"[Os] pecadores podem fazer penitência para um tempo determinado, e de acordo com as regras de disciplina vêm à confissão pública, e por imposição da mão do bispo e clero recebe o direito de comunhão. [Mas agora alguns] com seu tempo [de penitência] ainda não cumprido... eles são admitidos à comunhão, e seu nome é apresentado; e enquanto a penitência ainda não é realizada, a confissão ainda não é feita, as mãos do bispo e clero ainda não são postas sobre eles, a Eucaristia é dada a eles; contudo está escrito, 'Por isso, todo aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor.' [1Cor 11:27]" (Cartas 9:2 [253 d.C.]).

"E não penses, querido irmão, que vai ser reduzida a coragem dos irmãos, ou que os martírios falharão por esta causa, que a penitência seja diminuída para os decaídos, e que a esperança de paz [ou seja, a absolvição] seja oferecida ao penitente... Para os adúlteros mesmo um tempo de arrependimento é concedido por nós, e a paz é dada." (idem., 51[55]:20).

"Mas eu me pergunto se alguns são tão obstinados para pensar que o arrependimento não seja concedido aos decaídos, ou supor que o perdão é para ser negado ao penitente, quando está escrito, 'Lembra-te por que motivo estás caído, e arrepende-te, e faz as primeiras obras' [Ap 2:5], que certamente é dito a ele que evidentemente caiu, e a quem o Senhor exorta a levantar-se novamente por seus atos [de penitência], porque está escrito: 'A esmola livra da morte.' [Tb 12:9]" (idem, 51[55]:22).

O sábio persa Afrahat

"Vós [sacerdotes], então, que sois discípulos do nosso ilustre médico [Cristo], não deveis negar um curativo àqueles que necessitam de cura. E se alguém descobre a ferida dele antes de vós, dai-lhe o remédio do arrependimento. E aquele que tem vergonha de tornar conhecido sua fraqueza, encorajai-o para que ele não o esconda de vós. E quando ele vos tiver revelado, não o torne público, para que, por causa disso, o inocente possa ser considerado como culpado por nossos inimigos e por aqueles que nos odeiam." (Tratados 7:3 [340 d.C.]).

Basílio, o Grande

"É necessário confessar nossos pecados àqueles a quem é confiada a entrega dos mistérios de Deus. Aqueles fazendo penitência de antigos são encontrados para tê-la feito antes dos santos. Está escrito no Evangelho que eles confessaram seus pecados a João Batista [Mt 3:6], mas em Atos [19:18] eles confessaram aos apóstolos." (Regras Brevemente Tratadas 288 [374 d.C.]).

João Crisóstomo

"Os sacerdotes receberam um poder que Deus não deu nem aos anjos, nem aos arcanjos. Foi dito a eles: 'Tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu'. De fato, os governantes temporais têm o poder de ligação; mas eles só podem ligar o corpo. Os sacerdotes, por outro lado, podem ligar com um vínculo que pertence à própria alma e transcende os próprios céus. [Deus] não lhes deu todos os poderes do céu? 'Àqueles a quem perdoardes os pecados,' diz, 'ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.' Que poder há maior do que este? O Pai deu ao Filho todo julgamento. E agora eu vejo o Filho colocando todo esse poder nas mãos dos homens [Mt 10:40; Jo 20:21–23]. Eles são elevados a esta dignidade como se eles já fossem recolhidos ao céu." (O Sacerdócio 3:5 [387 d.C.]).

Ambrósio de Milão

"Para aqueles a quem foi dado [o direito de ligação e separação], é óbvio que ambos são permitidos, ou nenhum é permitido. Ambos são permitidos para a Igreja, nenhum é permitido para a heresia. Porque este direito foi concedido somente aos sacerdotes." (Penitência 1:1 [388 d.C.]).

Jerônimo

"Se a serpente, o diabo, morde alguém secretamente, ele infecta essa pessoa com o veneno do pecado. E se quem foi mordido se mantém em silêncio e não faz penitência, e não quer confessar sua ofensa... então seu irmão e seu mestre, que têm a palavra [de absolvição] que vai curá-lo, não pode ajudá-lo." (Comentário sobre Eclesiastes 10:11 [388 d.C.]).

Agostinho

"Quando tiveres sido batizado, mantém uma vida boa nos mandamentos de Deus para que possas preservar teu batismo até o fim. Não te digo que viverás aqui sem pecado, mas eles são pecados veniais os quais esta vida nunca está sem. O Batismo foi instituído para todos os pecados. Para os pecados leves, sem os quais nós não podemos viver, a oração foi instituída... Mas não cometas aqueles pecados por conta dos quais tu terias de ser separado do corpo de Cristo. Que pereça o pensamento! Porque aqueles a quem vês fazendo penitência cometeram crimes, também adultério ou algumas outras maldades. É por isso que eles estão fazendo penitência. Se os pecados deles fossem leves, a oração diária bastaria para apagá-los... Na Igreja, portanto, há três maneiras de os pecados serem perdoados: nos batismos, na oração e na humildade maior de penitência." (Sermão aos Catecúmenos sobre o Credo 7:15, 8:16 [395 d.C.]).

Traduzido para o Veritatis Splendor por Marcos Zamith do original em inglês disponível em http://www.catholic.com/library/Confession.asp.



quarta-feira, 11 de abril de 2012

Os Anencéfalos e a Dignidade Intrínseca da Vida

Há um recente filme americano que conta, de modo bem idealizado, a saga do pornógrafo Larry Flynt. Ali, ele é retratado como um lutador pela liberdade de expressão. “Muito mais que um viciado em pornografia, Larry é um viciado em liberdade”, diz uma das chamadas do filme. O subtítulo da produção cinematográfica é o seguinte:

“You may not like what he does, but are you prepared to give up his right to do it?”
Em tradução livre, seria mais ou menos: “você pode não gostar do que ele faz; mas está pronto para abdicar do direito que lhe permite fazê-lo?”

Há um longo discurso no filme, do advogado de Larry Flynt perante uma das Cortes americanas que julgava se a publicação pornográfica de Larry (a revista Hustler) devia ou não ser protegida pela Primeira Emenda da Constituição Americana, aquela que trata da liberdade de expressão. Dizia o advogado:

“No coração da Primeira Emenda está o reconhecimento da importância fundamental do fluxo de ideias. A liberdade para falar o que se pensa não é só um aspecto de liberdade individual, mas essencial no que diz respeito à verdade e a vitalidade da sociedade como um todo. No mundo das discussões de assuntos públicos, muitas coisas são menos admiráveis, mas não menos protegidas pela Primeira Emenda.”

Todo o desenvolvimento do filme vai, então, dirigir-se no sentido de ressaltar a baixeza do caráter do seu personagem principal, para provar a tese de que a liberdade de expressão, no limite, existe para proteger a expressão daqueles com quem a maioria não concorda, os sujos, os asquerosos, os não-alinhados, os repugnantes. A defesa da liberdade de expressão não tem vínculo com a qualidade do que está sendo expresso, mas com o direito de manifestar mesmo aquilo que, aos olhos da maioria, não tem mesmo nenhuma qualidade.

Em suma, o que se tutela é a liberdade de expressar-se, e não a qualidade de tal expressão. E é exatamente na expressão de pensamento de baixa qualidade – ou sem qualidade nenhuma – que a cláusula constitucional de liberdade de expressão torna-se mais premente.

Esta pequena digressão visa apenas estabelecer que a liberdade de expressão, que é tomada em tal amplitude, está fundada num princípio muito mais amplo, o próprio princípio constitucional da dignidade da vida humana. Vale dizer, há a liberdade de expressão exatamente porque se está vivo: não pode se expressar quem não vive.

Por outro lado, não há comparação entre a amplitude do princípio da dignidade da vida humana e o princípio da liberdade de expressão. É possível haver uma expressão de pensamento que seja indigna da tutela constitucional. Dou como exemplo o pensamento expresso no anonimato: não se tutela a expressão anônima do pensamento, conforme o art. 5º, IV, da Constituição Federal de 1988. Além disso, a Constituição garante, às pessoas ofendidas pelo mau uso do direito alheio de expressão, o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem, nos termos do art. 5º, V.

No que diz respeito à vida, porém, não há possibilidade de tais restrições. Nossa Constituição não conhece uma vida humana que seja indigna em si mesmo. O direito à vida, portanto, não se fundamenta em nenhum tipo de juízo quanto à qualidade mesma da vida que está sendo tutelada. Vale dizer, o nosso direito não tutela a qualidade de vida: tutela a dignidade intrínseca da vida.

Podia não ser assim. Há ordenamentos jurídicos que não tutelam a dignidade da vida, mas a qualidade dessa vida. O direito sul africano do apartheid, por exemplo, admitia que determinadas etnias não tinham a mesma dignidade, quanto à proteção da sua vida, que outras: uma vida branca era mais digna, ali, que uma vida de uma pessoa de cor negra. Havia, portanto, uma avaliação intrínseca da qualidade da vida a ser tutelada, para os fins de determinar a sua dignidade.

O mesmo acontecia com o direito nazista: determinadas etnias, como a judaica, não eram reconhecidas como dignas da vida. Ou seja, a dignidade da vida, ali, passava por uma avaliação prévia da sua qualidade.

Nosso direito não conhece tal avaliação prévia da qualidade da vida para estabelecer a sua dignidade intrínseca. Para nosso ordenamento, aplica-se, portanto, no que diz respeito à tutela do direito à vida, algo que poderíamos chamar de “o princípio Larry Flint”: se não formos capazes de defender a vida aparentemente mais frágil, mais tênue, a que título poderemos proteger todas as outras?

Assim, a defesa da dignidade intrínseca da vida dos nascituros anencéfalos é a defesa da vida de todos: trata-se da defesa do princípio da dignidade da vida humana independentemente do questionamento sobre a sua qualidade. Não é a qualidade da vida, se vigorosa ou frágil, se prolífica ou infrutífera, se longa ou breve, se saudável ou doentia, que determina que uma vida humana tenha dignidade. O que determina tal dignidade é a sua existência, e ponto final.

Por isso, se estabelecermos que é possível, em nosso direito, sopesar a qualidade da própria vida humana para determinar sua dignidade, e, com isso, estabelecermos que um bebê anencéfalo pode ser morto porque sua vida não tem qualidade, e portanto não tem dignidade, estaremos rompendo um princípio básico de dignidade de vida, a de que esta dignidade é incondicional.

Por isso, também para os bebês anencéfalos, nosso direito constitucional deve reverberar o art. 6º da Declaração Universal de Direitos Humanos, que afirma expressamente que “Todo ser humano tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei.”. Vale dizer, os conceitos de “ser humano” e de “pessoa” têm que ter a mesma extensão e a mesma dignidade. Devem atingir a todos os entes humanos, independentemente da qualidade da vida que portam.

É o mesmo teor da a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu respectivo Protocolo Facultativo, que foram ratificados pelo Congresso Nacional em 09/07/2008 pelo decreto legislativo nº 186/2008, cujos artigos são todos de aplicação imediata. Ali, no art. 10, está expressamente estabelecido que os Estados Partes reafirmam que todo ser humano tem o inerente direito à vida.

Note-se que a anencefalia não significa ausência de cérebro, mas apenas sua incompletude ou má formação. Se não conseguirmos proteger um cidadãozinho que tem o cérebro mal formado ou incompleto, abrimos a porta para que cada vida humana possa ser questionada e desprotegida com base na adequação ou inadequação a um padrão de perfeição clínica a ser estabelecida ad hoc. Se os anencéfalos não podem viver, podem ser mortos ainda dentro do útero de suas mães, porque não têm um dos seus órgãos corporais perfeitos, rompeu-se o princípio da dignidade da vida humana tout court. O nosso direito, então, desconhecerá o princípio da dignidade da pessoa humana e conhecerá apenas um princípio da qualidade da vida humana: as vidas que não forem conformes a um padrão clinico de perfeição serão descartáveis. Hoje são os nascituros anencéfalos. Em seguida, os velhos doentes em estado terminal, que serão assassinados “por misericórdia”. Seguir-se-ão os abortos dos portadores de anomalias congênitas graves (como já ocorre com os portadores de síndrome de Down nos países em que o aborto está liberado) e aí ninguém mais estará seguro: quem quer que se encontre numa situação de fragilização, sem poder exprimir a própria vontade, seja por imaturidade (no útero materno, por exemplo), seja por doença ou senilidade, e esteja numa situação clínica desconforme aos padrões de saúde tidos como definidores de uma “qualidade de vida” abaixo da qual a morte do ser humano está autorizada em nome da misericórdia com os familiares ou com eventuais cuidadores, estará sujeito a ter o mesmo destino que se quer dar, hoje, aos nascituros anencéfalos.

Assim, poderíamos terminar parafraseando a expressão de efeito do filme “Larry Flint”, colocando-a nos lábios de um nascituro anencéfalo condenado à morte por aborto no próprio útero da mãe: “você pode não gostar do que eu sou; mas está pronto para abdicar do direito que me garante viver?”. Ora, o direito que garante a vida do nascituro anencéfalo é o mesmo que, no fim das contas, garante a nossa.

* O autor é Procurador Regional da República e Mestre em Direito Econômico pela UFBa. Também autor do livro "Cartas a Probo" Ed. COMDEUS.

FONTE ELETRÔNICA;


Mensagem de um médico aos Ministros do Supremo Tribunal Federal

Aos Excelentíssimos Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF),
Respeitosamente, informo-lhes como cidadão brasileiro, natural do Rio de Janeiro, RJ, que o direito à vida é sagrado, não tendo nenhum de nós o direito de determinar quem deve viver e quem deve morrer, não importando se o ser humano em questão tem ou não malformações.

A vida humana verdadeiramente começa no momento da concepção, a qual se dá no terço superior da trompa uterina, quando surge o zigoto pelo encontro do espermatozóide com o óvulo. O zigoto vai sofrendo mudanças num processo contínuo, até a sua nidação no endométrio uterino. Todos nós, sem exceção, começamos a nossa existência a partir da fase de zigoto (primeiros quinze dias da fecundação até a nidação), que é seguida pela de embrião (da terceira até a sétima semanas de gestação, quando todos os nossos órgãos são formados), que é seguida pela fase fetal (do início da oitava semana até as 37-39a semanas de gestação, quando se dão o crescimento e o desenvolvimento dos órgãos e sistemas já formados). Da fase fetal vem a de recém-nato lactente, depois a de criança, depois a de adolescente, a de adulto jovem, a de adulto maduro, e por fim a de adulto idoso. Negar tudo isso é negar a Verdade biológica.

Todos nós erramos e a capacidade que temos de buscar justificativas para os nossos erros (pecados) é ilimitada! Quantos tratados são escritos buscando-se justificar o que é moralmente, intrinsecamente mal! As justificativas escritas e faladas são múltiplas, geralmente bem elaboradas, e envolvem sempre uma visão parcial dos problemas complexos da vida, podendo ser justificativas jurídicas e/ou políticas e/ou sociológicas e/ou psicológicas e/ou filosóficas e/ou circunstanciais e/ou econômicas e/ou históricas, etc, etc.

A Verdade por ser a Verdade é perene, não muda! Nenhum problema complexo, que envolve o viver humano, realmente se resolve por meio de soluções simples como a aprovação de uma Lei que torna lícito o moralmente ilícito, o intrinsecamente mal. Problemas complexos exigem soluções complexas.

Toda questão polêmica, pelo simples fato de ser polêmica, ao gerar posições moralmente contraditórias, já mostra ser, em si, intrinsecamente, um mal moral, que se quer aprovar como sendo aceitável ou como sendo moralmente indiferente. Dito de outro modo: A polêmica surge quando se quer tornar moralmente lícito o que é intrinsecamente, naturalmente, um mal moral.

Nenhuma Lei consegue transformar a mentira em verdade. Sabemos que nem tudo o que é legal na Lei é moralmente lícito.

É dever do Estado defender sempre a vida, especialmente a do mais fraco, principalmente de quem não tem voz, devendo o nascituro ser incluído neste grupo, independentemente de ele ser ou não malformado, e desde o momento da concepção, pelo que foi explicado acima.

Somente a Verdade nos torna verdadeiramente humanos, verdadeiramente livres e verdadeiramente felizes. Onde o Amor prevalesce todos os problemas, por mais complexos que sejam, encontram a sua solução. Lembrem-se do exemplo da madre Teresa de Calcutá, que sempre defendeu a prevalência do Amor na solução dos problemas complexos da vida. Ela, aparentemente sem nada, no seu testemunho de Amor ao próximo, incluindo as crianças não-nascidas, não-queridas, conseguiu com a ajuda de Deus, o humanamente impossível.

Os Senhores e Senhoras Ministros do STF, como Doutores da Lei, devem lembrar-se que o Dono da Verdade está acima de nós. Sem Ele não somos nada e facilmente trocamos os pés pelas mãos.


Atenciosamente.

Fernando Colonna Rosman
Professor Adjunto
Departamento de Patologia
Faculdade de Medicina
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Médico Patologista
Serviço de Anatomia Patológica
Hospital Municipal Jesus
Rio de Janeiro-RJ
Av. Borges de Medeiros 3181
CEP 22470-001 Rio de Janeiro, RJ
Tel: (21) 2539-8769

FONTE ELETRÔNICA;

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O sentido teológico da Semana Santa

Páscoa

O sermão de São Gregório Nazianzeno começa numa espécie de jubilosa exclamação: «Páscoa, Páscoa, Páscoa, três vezes Páscoa, direi em honra da Santíssima Trindade. Esta é para nós a festa das festas, a solenidade das solenidades. Como o fulgor do sol apaga as estrelas, assim esta festividade excede a todas as outras, não só as humanas mas as do próprio Cristo e que por causa dele se celebra». Lembremos a instituição da Páscoa no Antigo Testamento, quando Deus encarregou Moisés de ensinar os israelitas que sofriam servidão no Egito: «No décimo-quarto dia desse mês, os filhos de Israel tomarão em cada família um cordeiro de um ano, sem mancha, o imolarão, e com o seu sangue marcarão os umbrais de suas portas, e nessa mesma noite comerão a carne do cordeiro com pão sem fermento e ervas amargas… E comerão com os cintos atados, as sandálias de viagem nos pés, e com o bastão na mão; porque é a Páscoa, isto é, a Passagem do Senhor». E agora nesta Páscoa do Novo Testamento, em que o próprio filho de Deus é imolado, procuremos compreender bem em toda a profundidade, o mistério desta solenidade três vezes bendita.

Páscoa, para nós quer dizer Passagem e faz-nos lembrar que somos peregrinos, que estamos em caminho da pátria como os israelitas estavam a caminho de Canaã, onde abundava o leite e o mel. Por isso, a nossa maior festa ainda é celebrada em marcha, às pressas, com o cinto apertado e a sandália de viajante nos pés. Ainda não chegamos, e por isso, à carne do cordeiro que comemos se misturam ervas amargas. Estamos no meio do Mar Vermelho. Em direção à Pátria, mas ainda no mundo. Estamos no deserto, vivendo da palavra de Deus.

Páscoa, para nós, quer dizer também Discriminação. É a festa da nitidez. Ou temos os umbrais de nossa alma marcados com o sangue do Cordeiro, ou pereceremos na Passagem do Anjo exterminador. Esta característica pascal parece contrária à anterior pois lá se falava de transição e aqui se fala de nitidez e essas duas idéias têm ressonâncias opostas. Convém portanto precisar melhor: A transição se refere à nossa condição exterior de peregrinos; a discriminação se refere à marca interior do Sangue de Cristo em nós. Estamos em trânsito, passando por estações intermediárias, vivendo dia a dia as gradações do mundo, mas nossa alma, por cima do mundo, está ancorada; e em contraste com o cinzento dos dias está nitidamente marcada com o rubro Sangue do Cordeiro.

A cruz que é para os gentios sinal de escândalo e de loucura, é para nós sinal de nitidez e de absoluta discriminação. Onde ela se planta desaparecem os meios-termos, os compromissos, as concordatas, e toda essa indecisão que fazia muitos israelitas no deserto suspirarem com saudades da servidão do Egito, porque lá, ao menos, tinham garantida a gamela de carne com cebolas. Para nós, a Cruz deve ser o sinal de um franco contraste. Ou somos marcados, ou não somos. Ou estamos com Cristo ou contra ele. Ou avançamos ou regredimos. Não há meio-termo à luz do círio pascal.

Apliquemos em nós, cada dia, cada hora, esse espírito discriminador da Páscoa, e saibamos imprimir em cada um de nossos atos o sinal da cruz. A tentativa mais insensata que fazemos é a de procurar um meio-termo entre Deus e o Mundo. Dizemo-nos católicos com uma terrível tranqüilidade e com uma impressionante inconseqüência. Dizemo-nos católicos e continuamos a viver as mesma infidelidades e a saborear as mesmas carnes e cebolas do faraó. Dizemo-nos cristãos, mas a marca do Sangue mais parece uma rosada aguadilha, mais parece um sinal de maquilagem do que uma infusão de incondicional amor.

Sejamos pascais, sejamos nítidos; ou não seremos Cristãos.

Páscoa, para nós, também quer dizer salvação. Se estamos em marcha, e se nitidamente optamos, já estamos salvos, salvos em Esperança. O mesmo Sangue que discrimina já tem a virtude salvífica, já opera o que significa e já nos dá direito de falarmos a Deus com a liberdade de filhos.

Terminemos com a leitura de São Gregório Nazianzeno:
«Hoje é o dia em que fugimos do poder egípcio, das mãos do odioso faraó e de seus cruéis ministros; dia em que nos libertamos da argila e das olarias. A festa do Êxodo já ninguém há que proíba celebrá-la com o Senhor nosso Deus, e não mais com o velho fermento da malícia e da corrupção, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade, nada trazendo conosco do ímpio fermento egípcio. Ontem angustiava-me com o Cristo na Cruz, hoje sou também glorificado. Ontem com Ele morria, hoje com Ele sou vivificado. Ontem sepultava-me com Ele, hoje com Ele ressuscito».
Fonte: http://mercaba.wordpress.com/2009/04/12/pascoa/